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 Cortando Laços Indesejados
Seth
 Posted: Mar 21 2018, 12:47 PM
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Seth




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Cortando Laços Indesejados

Um bom ferreiro era aquele que mostrava-se eficiente principalmente na molda do metal. Mesmo um lingote de má qualidade pode ser transformado em uma ótima espada se bem moldado, enquanto aqueles com boa qualidade de nada valiam caso o artista não soubesse o momento exato para aplicar o choque térmico ou dobrar a malha - afinal, são nesses momentos que presenteia-se a lâmina com resistência e um belo corte. Para Solar, não fora diferente. Irus crescera em um berço de ferreiros, o manuseio da forja era um de seus prazeres - e orgulho tanto seu quanto da família. Sua lança, Solar, aplicava-se ao famoso objetivo entre todos aqueles que compartilhavam de profissão, durante a criação de uma arma: funcionava como um terceiro braço, uma extensão de seu corpo, de tão bem feita e proporcional ao tamanho do Chacal. Os anos e anos seguintes após sua feitura, uma incontável soma de retoques e polimentos, fizeram-na o reflexo de todo o carinho do dono. Não a diferenciava mais do próprio braço, ou a sentia como um peso estranho, era simplesmente parte de si, tal como se houvesse nascido junto à lança. Eventualmente, durante uma luta, todo o desvio, auxílio ou aparar era automático, realizado por sua haste, em uma resposta inconsciente do corpo do Mink. Contra Siena não fora diferente: Solar aturou todo o choque contra a espada curta da Gata sem vacilar, enquanto também era utilizada como apoio para a movimentação do dono no terreno difícil da floresta.

Os encontros entre as armas eram frequentes. Com eles, faíscas do atrito e sons metálicos. em conjunto ao cheiro ferroso, que subia-lhe às narinas tão familiar. Reconhecia a força de Siena, agora que finalmente estava recuperada. Sua luta com Vendrick, apesar do acerto do golpe, levara seu corpo à exaustão pela perda de uma nova leva de sangue. Agora, mesmo após vários minutos de trocas, nenhum dos dois adversários havia alcançado qualquer tipo de vantagem na luta, muito menos viam qualquer sinal de alcançar algum. O suor quente já começava a impregnar seu corpo novamente, a cada pulo que dava para um desvio ou uma movimentação no terreno desnivelado. Em contraste, a temperatura baixa da noite trazia-lhe um choque térmico incômodo, semelhante ao que fazia com uma nova produção na forja. Batia contra seu peito secando parte da água expelida pelos poros de sua pele e tornava a pelugem ainda mais grudenta do que já estava após a caminhada nos túneis do líder horas antes. A cúpula da floresta, que imaginava ter pedido efeito por causa do horário, surgia por entre as sombras escuras da noite, em um anúncio de que nunca havia ido embora, e simplesmente estava à espreita, esperando o pior momento para voltar. Estava abafado. Sacudiu o focinho, em resposta ao estímulo detestável. Precisava de um outro banho, assim que se visse livre do lugar, livre de Siena.

Deu um passo para trás forçado, buscando apoio após a nova investida da Gata. Chegou a levantar a musculatura do nariz, quase acompanhado de um grunhido, pela força que usava para impedí-la de avançar. Contudo, conseguiu controlar o desejo, logo desviando-a para outro lado com auxílio da distância que Solar lhe dava entre si e o adversário. Uma nova sucessão de ataques surgiu após o desvio, embora falhos como os anteriores.

Mesmo que Kamshad esteja machucado, não significa que deva ficar aqui, perdendo tempo. Ele pode estar indo atrás de reforços, pensou, sem piscar os olhos em meio aos pulos. Estavam fixos no contorno de Siena desde o começo do combate, ou provavelmente não teria desviado de todos os avanços contra si.

A gata não pensava duas vezes em seus ataques - ao ponto de acertar o cenário ao seu redor, sem se importar com o quê atingia. Tal pecado mostrou-se custoso quando atingiu uma árvore, prendendo a espada com mais força do que o esperado em seu tronco. Irus aproveitou-se rapidamente da oportunidade para afastá-la de sua aba com Solar, resultando na perda de sua arma. Mas não deve estar só com a espada, pensou, recuando para trás. Provou-se certo segundos depois, quando sua adversária puxou duas pequenas adagas escondidas nas costas. Remexeu as orelhas e a cauda, pouco satisfeito. Não queria subestimá-la, mas sabia que estava em uma grande desvantagem com armas de tão curto alcance: não conseguiria chegar facilmente perto do Chacal, que podia usar de Solar para afastá-la quando ousasse se aproximar demais, enquanto a Gata dependia de estar quase colada ao seu corpo para causar algum dano. Essa sempre fora a vantagem de uma lança, ou de armas de longo alcance. O diferencial é o acerto e o dano. Semicerrou os olhos com o abraço da brisa noturna da floresta. Curto alcance é mais fatal.

Partiu para cima de Siena novamente, em disparada. Queria atingir seus pés - não podia deixá-la com mobilidade para tentar chegar perto de si. Com sua corrida, incitaria um ataque direto no peito, contudo um rápido giro da arma provaria ser uma mudança inesperada de foco. Não podia perder tempo.



Spoiler
Irus

Atributos:
QUOTE
✦ FORÇA: 12
✦ ACUIDADE: 4
✦ PRECISÃO: 10
✦ DESTREZA: 11
✦ VITALIDADE: 8

✦ DANO CORPO A CORPO: 19
✦ DANO A DISTÂNCIA: 4
✦ DANO DE ARREMESSO: 13

✦ ACERTO CORPO A CORPO: 14 (+3 (Vigilância - Primeiro Ataque Apenas))
✦ ACERTO A DISTÂNCIA: 10

✦ ESQUIVA: 15
✦ BLOQUEIO: 13
✦ AGILIDADE: 18

✦ RESISTÊNCIA: 5
✦ PONTOS DE VIDA: 70
✦ ENERGIA: 75



Peculiaridades e Aprimoramentos:
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Faro Aguçado : Você tem um olfato com sensores capazes de farejar tão bem quanto um perdigueiro.
Benefício: Quando identifica o cheiro de algo ou alguém consegue seguir os rastros, mesmo à grandes distâncias e em meio a outros cheiros (desde que esses não sejam excessivos), mas pode perder o alvo caso este modifique seu cheiro ou algo externo apague os rastros (como chuvas pesadas ou cheiros muito fortes interferindo a busca).

Recuperação Espantosa: O personagem possui uma recuperação fora do normal, seja para dores ou para fadiga. Enquanto uma pessoa normal estaria de cama, recuperando-se duma batalha, você já está ativo e pronto para a próxima. Geralmente, o personagem possui um tipo preferido de recuperação (ex: comendo ou descansando).
Benefício: Quando fora de momentos de tensão o personagem recupera 1% de sua vida total por turno (arredondado para cima), e se conseguir usar seu método preferido a recuperação aumenta para 2% por turno . (À critério do GM essa taxa pode ser maior quando o turno avança longos períodos de tempo, como uma noite de descanso ou uma viagem entre ilhas).

Aceleração: Você é mais ágil que o normal e pode realizar ações e correr mais rápido. Esta Vantagem permite realizar uma tarefa que normalmente tomaria sua movimentação no turno, como recarregar uma arma ou desativar uma bomba, porém ela não permite atacar mais do que o estipulado pelo mestre.
Benefício: Interpretativo; Concede um bônus +4 em Agilidade

Noção do Perigo : Seu personagem praticamente tem um sexto sentido e sempre está alerta, podendo pressentir quando está sob qualquer tipo de ameaça. Isso não significa que ele "sente" personagens, e sim que sabe quando há risco perto.
Benefício:Concede um bônus +4 nos testes de Percepção.

Audição Aguçada :Possui uma audição sensível, capaz de perceber sons baixos e distantes, ou identificar de onde vêm.
Benefício: Interpretativo; Concede um bônus +2 nos testes de Percepção.

Ligação Natural: Você tem uma ligação poderosa e sobrenatural com um animal, criatura ou personagem. Os dois foram destinados um ao outro desde que nasceram. Este ser jamais irá atacá-lo, e será capaz de sacrificar a própria vida para proteger o companheiro que, por sua vez, vai retribuir essa proteção.
Benefício: Recebe um animal caso não tenha (sem ficha própria), e o animal faz de tudo para proteger seu dono. Pode ser usado em conjunto com "Adestrador" para aumentar a ligação entre adestrador e seu mascote, e nesse caso o mascote recebe um bônus +2 nas jogadas de acerto, dano e defesa quando age para proteger seu dono.

Sincronismo Natural : O personagem uma habilidade natural para se adaptar aos diferentes estilos de combate de seus adversários, sendo capaz de aumentar sua eficiência conforme estende suas lutas.
Benefício: A partir do terceiro turno de combate contra um inimigo em particular, o personagem recebe um bônus +1 nas jogadas de acerto, dano e defesa, e esse bônus aumenta em +1 a cada novo turno, até um máximo de +3. Esse benefício só pode ser usado contra um oponente por vez, e é perdido ao final de cada combate.

Le Parkour : É uma atividade onde seus adeptos percorrem um caminho cheio de obstáculos e tem por finalidade chegar ao final do percurso em menos tempo. É composta por escaladas, saltos e outras manobras arriscadas na intenção de superar obstáculos rapidamente. Soma com Acrobata.
Benefício: Concede um bônus +1 nas jogadas de defesa e agilidade, e ignora penalidades por terrenos difíceis.

Linguagem Corporal - Combate : Esta perícia permite que você “leia” os movimentos sutis e alterações na postura do adversário.
Benefício: Concede um bônus +1 nas jogadas de acerto e defesa.

Minerador : Perito em minérios e rochas, consegue identificar diversos tipos de pedras e metais encontrados na natureza, assim como seus métodos de extração.
Benefício: Interpretativo; Permite o jogador coletar matéria prima para criação de itens com metal, garantindo até 10% de desconto no valor total do item (De acordo com o GM).

Sobrevivência: Você tem conhecimento e treinamento básico de sobrevivência em emergências. Sabe criar fogo, pescar, criar um refúgio. Isto independente da região que aconteça o acidente. Suas medidas serão rudimentares, mas serão suficiente.
Benefício: Interpretativo. Pode ser usado em conjunto com aprimoramentos regionais (como "Homem das Montanhas" ou "Homem das Selvas") para melhores resultados.

Acrobata : Com grande capacidade de movimento, consegue entrar com facilidade em locais de difícil acesso, executar difíceis manobras e realizar acrobacias diversas.
Benefício: Interpretativo; Concede um bônus +1 nas jogadas de defesa.

Vigilância : Treinamento excessivo fez do seu personagem um “paranoico saudável”, seu senso de perigo fez com que estivesse sempre pronto para o combate. Sempre que for surpreendido ou se iniciar um combate, seu personagem já estará pronto para reagir, seja com punhos ou com arma, e o primeiro ataque sempre terá acerto com chance bonificada.
Benefício: Concede um bônus +2 nos testes de Percepção. Concede um bônus +3 no acerto do primeiro ataque no combate.





@Muffin

QUOTE
"Huh, greetings."


This post has been edited by Seth: Mar 21 2018, 12:49 PM

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Angelique
 Posted: Mar 26 2018, 10:07 AM
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Angelique




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Angelique is Offline

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Irus tinha bastante tamanho e mais peso ainda, correndo na direção da outra mink enquanto não media esforços para pará-la, sabendo que sua vantagem era de longe a flexibilidade e agilidade, o que em contraste, era grande e abrutalhado, peso em seus golpes de Solar, não sendo agressivos, mas algo que poderia ser chamado de "cuidadosamente colocados", pois sabendo que não conseguiria dar vários ataques em sucessão, não poderia desperdiçar um único movimento durante uma luta com risco de vida.

Avançou sem trocar palavras, parecia um touro incentivado em ir em frente e iria dar uma estocada e Siena logo saltou para trás, pois bloqueá-lo seria impossível. Ela fez um "x" com as adagas com o intuito de redirecionar o movimento da lança do jovem, porém mesmo que ele estivesse com os olhos presos no peito dela, como se fosse acertá-la ali, o movimento de sua mão fora outro. Girando como se varresse o chão, acertou a haste da lança na ponta dos pés da garota e tamanha era sua força e a falta de peso da outra, ela basicamente girou duas vezes no ar e caiu pesadamente de costas no chão, trincando os dentes enquanto fazia uma careta, mas mesmo no escuro da floresta, ele via que ela se babava um pouco enquanto um cheiro ferroso inundava as narinas de Irus. Arash piou.

A coruja estava num galho próximo, observando-os por cima como se fosse um czar diante de seus gladiadores. Seu tamanho imponente a deixava deslocada naquela árvore que parecia pequena demais para si, menor ainda quando abriu as asas e piou mais algumas vezes com um sonoro "ow", como que querendo se comunicar com seu dono e saltando de onde estava empoleirada, arrebentando com seu peso o pedaço de madeira, que rachou e caiu sobre outro, sem realmente tocar no solo além de algumas penas e folhas. Ela saía dali e havia avisado de sua forma, sobrevoando na direção de Kamshad enquanto olhava perigosamente para trás, apenas para ter certeza de que Irus estaria bem sem ele.


- Você não esperava que eu viesse sozinha, não é mesmo? - Assim que ela termina de falar, uma mão grossa o agarra pelo ombro, virando e desferindo um soco na boca do mink, este tão forte que o faz cambalear para a frente e se apoiar em sua lança. - Senhor Paul, me ajude aqui.

- Tudo bem, Siena. Depois procuramos ele, agora temos prioridades com esse caçador. - Ele dizia calmamente enquanto delicadamente ajudava-a a se sentar na grama com sangue escorrendo por sua boca incessante, parecia que havia bebido água e não conseguira engolir, banhando totalmente seu queixo e pingando no chão. Ela estava sentada e com a mão no local onde houvera recebido o tiro, pressionando-o enquanto respirava e tentava se levantar. - Você já se excedeu demais, deixe comigo. Fora certo me notificar.

- Você!
- Sua voz agora era mais grosseira, parecia que ele tinha um misto de nojo e raiva para lidar com o chacal. - Seu lugar não é aqui. Essa não é a sua briga. Quais os motivos de querer parar nossa revolução? Ozwen está reunindo um exército e logo Parthevia cairá aos seus pés. Você trabalha para corruptos? Ou apenas está sendo o cão de caça da Marinha, estes que são os cães do Governo? Eles não tomam lados, apenas dizem quem é o "bom" e o "mau". Não vêem que somos a melhor escolha de Parthevia. O rei tem de cair! - Terminou de falar e puxou um par de maças de combate (presas no cinto de sua calça), maciças e com cravos na esfera grossa, elas tinham uma empunhadura de couro que ficavam enroladas no pulso do homem. As girou uma vez, apenas para que Irus reconhecesse que o peso delas eram o mesmo que nada para ele, uma intimidação leve. - Rebeldes estão por toda a ilha. Kamshad é um homem de influência, mas é apenas a ponta do iceberg. Pegue-o e fará um vão, dificilmente conseguirão substituí-lo, mas quando o fizerem, ele será melhor que o próprio. Somos pessoas comuns, somos piratas, somos até mesmo soldados. Você está pisando às cegas num campo de batalha.

Ela partia para cima e seus globos metálicos e espinhentos iam de encontro com o peito de Irus, que sem maestria alguma, em um movimento simplório, apenas colocou sua lança na frente, esta sendo uma enorme barreira por conta de seu peso. Paul abriu um sorriso confiante e colocou a perna no outro lado da lança, travando-a com uma maça numa extremidade e a perna na outra, deixando seu meio fácil de ser quebrado. Ele como ferreiro reconhecia os pontos que quebra e qualquer haste tinha seu meio como o local mais frágil por receber toda concentração de força ali.

Ergueu o braço que segurava a outra maça e a desceu com toda sua força, acertando o meio de Solar para que ela se repartisse ao meio e com isso, Irus não mais pudesse lutar em igualdade. Porém ele não esperava que o ferreiro tivesse uma forja tão boa.

Assim que a maça entrou em contato com a haste, essa apenas soltou um barulho enorme e nem ao menos entortou, visto que seu peso era demais para um arma dessas, ela apenas repeliu o ataque como se não tivesse recebido nada, o que era mentira, pois seu metal tornava-se arranhado e Paul olhava para Irus com certa descrença. A imagem do chacal no escuro, de pelos negros que o transformavam em uma sombra, os olhos que absorviam a luz da Lua e dos pontos distantes da cidade, eram como observar o vazio de um buraco negro, tendo apenas as beiradas para se segurar ao ser tragado. A mão que segurava a arma que parecia brilhar no escuro. Ele parecia um Deus e Paul, como um reles mortal, não teria chances alguma contra o outro. Cerrou os dentes com uma expressão irritada.


- ElecBall! - Siena vinha correndo com uma mão (ainda segurando a adaga) ainda pressionando o ferimento. Subia nas costas de Paul, em velocidade ela saltava chutando-o para trás e enfiando a mão energizada na lança de Irus, eletrocutando-o pelo metal segurado.

Tal choque fora o suficiente para que seus músculos se contraíssem, porém como ele próprio tinha sua habilidade Electro, aquilo fora apenas um desgaste, deixando-o um pouco paralisado e com taquicardia acelerada, sentindo um formigamento horrível pelo corpo enquanto seus pelos soltavam uma faísca após o golpe. Paul vinha e dava um encontrão no rapaz, jogando-o contra o chão enquanto ele apontava a uns dois metros sua maça para o caído e ficava ao lado de Siena, esta que caíra de joelhos na grama e ainda não aceitava a palma para se levantar, tomando seu tempo.

Caiu pesadamente na grama, erguendo um pouco de terra enquanto sua arma caía pesadamente ao seu lado, rolando duas vezes. Sentia que talvez houvesse quebrado uma costela ou apenas dado um mau jeito, pois uma dor no peito lhe incomodava demais. Não havia cortes pelo corpo e isso era um bom sinal, entretanto, houvera recebido um tiro na panturrilha logo cedo e ele começava a arder como uma queimação. Conseguia se mover normalmente, porém seus músculos estavam tensos e dizendo para que ele descansasse um pouco. Respirava rápido graças aos esforços, mas principalmente por seu coração estar batendo fortemente.


- Nossa raça é privilegiada, não é...? Eu sabia que não iria conseguir vencê-lo sozinha, então eu dei um sinal para Paul se aproximar assim que você me acertasse. Meu ferimento ainda não está nem perto de curado e com o sangue escorrendo, o cheiro o encobriria e você não o veria vindo. - Ela ria com um fofo e fora de contexto "nyanhanha" enquanto tossia duas rajadas vermelhas no chão, limpando inutilmente a boca e finalmente dando a mão para o maior. - Eu vim preparada. - Seu olhar brilhava no escuro enquanto ela retirava a mão da frente da boca, o queixo ensanguentado com os dentes vermelho escuro, tinha uma face maníaca no rosto enquanto o grandalhão estava sério.

- Desista, caçador. Dinheiro não é uma causa tão grande quando comparado à uma nobre. Retire-se, pois daqui você tira nada. Iremos tomar Parthevia de uma forma ou de outra, você é só um contra uma facção inteira.

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Seth
 Posted: Mar 28 2018, 10:53 PM
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Seth




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Cortando Laços Indesejados

A resposta de Siena fora a que buscava como reação da primeira parte de seu movimento. Assim que a gata assumiu uma postura defensiva com o que podia das adagas - um clássico X, no qual o encontro das duas lâminas seria o ponto utilzado para aparar -, Solar imediatamente negou-lhe o ataque esperado, correndo para o lado em uma meia lua até ir de encontro com seus pés. Como se houvesse puxado o chão de terra fofa do seu alcance, Siena perdeu facilmente o equilíbrio. Seu corpo magricelo fora forçado a acompanhar o movimento circular da lança, mais do que o esperado pelo próprio chacal, rotacionando em meio ao ar por dois giros completos graças ao impulso na corrida que pegara para alcançá-la e a sua força natural, que não era pouca. O som da queda atingiu-lhe as orelhas pouco tempo após sentir Solar novamente livre em suas mãos, sem o bloqueio da massa da gata que tivera de empurrar. E, seguido dele, um cheiro ferroso familiar para si. Sangue, sussurrou nos próprios pensamentos. Chegou a fintar uma abertura entre os lábios para respirar também pela boca, como normalmente faria à um odor forte, porém tudo o que fez foi remexer o focinho em um desgosto contido. Sabia que não era seu, mas de Siena. Pelo que qualquer um poderia deduzir, a gata não havia se recuperado completamente do tiro que tomara dos mafiosos, quando encontraram-se pela primeira vez. Qualquer movimentação brusca viria a ser um problema para o ferimento semi-aberto, resultando em uma nova perda de sangue, além das dores consequentes. Tivemos a fuga da taverna, a luta com Vendrick, e, agora… nossa luta. O som do corpo caindo contra o chão passou novamente por sua cabeça negra, abafado somente pela terra úmida da floresta. A queda foi pior do que ela poderia imaginar, concluiu.

Arranjou-se em posição novamente, esperando alguma reação da mink por um tempo, até o piado de Arash romper a curta trégua implícita da luta. Havia retornado. O Comodoro foi avisado, então. Se demorarmos ele deve estimar o que aconteceu. Acompanhou o companheiro com o canto do olho, pulando no galho agitado - este que logo provou-se frágil para o tamanho e peso incomum da coruja. Sua quebra foi utilizada como deixa para sair do local, ao encontro do contorno familiar de Kamshad. Não estava a muitos metros de distância de sua luta com Siena, provavelmente retaliado pelos machucados que adquiriu horas antes. Como pensou, o líder não iria longe com o péssimo estado que seu corpo estava. A velhice consumia qualquer um, independente do quão resistente o indivíduo fosse, ou de seu passado. A diferença era somente na velocidade que o envelhecimento ocorria - para alguns, vinha mais cedo. Seus músculos secavam até o dono tornar-se uma uva passa de pele e veias, geralmente influenciado por doenças ou a fragilidade do próprio organismo. Um ramo de dez escadas já se tornava um grande desafio, exaurindo qualquer energia que possuíssem nos primeiros degraus. Leves esbarrões também já eram capazes de estourar veias, deixando manchas roxas consumirem a área atingida. Os mais resistentes, no entanto, conseguiam manter parte da musculatura e mostravam-se mais dispostos no dia a dia. Ramos de escadas não eram problema, caso não fossem mais de dois. E os machucados, apesar de doloridos, precisavam de um pouco mais de força para exibir uma mancha semelhante a dos mais frágeis. Kamshad certamente estava no grupo dos últimos, para ainda não ter desmaiado.

Voltou a encarar os olhos afiados da gata quando reunira forças para falar, mas, antes que pudesse pensar na resposta, uma mão pesada foi de encontro com sua boca, deferindo um poderoso soco e fazendo-o recuar. Sentiu a tonteira subindo-lhe à cabeça, a princípio. O gosto de seu próprio sangue não demorou a aparecer, vazado da bochecha rasgada pelo choque com os dentes. Engoliu. Não gostava de deixar vestígios tão fáceis de serem detectados como aquele. Siena, no entanto, não parecia ter muita escolha: além do ferimento em sua barriga, voltara ao estágio de seus fluidos virem à força de dentro para fora do seu corpo, não conseguia evitar abrí-la para dar alguma saída ao fluxo e não engasgar.

Foram poucos segundos até conseguir se restabelecer. A voz e o contorno familiar de Paul assumiram forma ao lado da gata, estendendo a mão para ajudá-la a se estabilizar novamente. Paul… então era um deles , estalou a cauda repetidamente de um lado ao outro. Siena não estar sozinha não era uma surpresa para si, não estava caçando qualquer um. Kamshad era o líder dos rebeldes, e como qualquer líder, requisitava devido acompanhamento para manter-se seguro e garantir a execução dos próprios planos, embora também fosse capaz de derrubar um ou dois oponentes com facilidade. Na verdade, esperava mais homens ao lado de Siena, visto que possuíam uma agenda para seguir naquela noite. Era por esse motivo que gostaria de ter a companhia de Vendrick, como ponderou logo ao voltar para os túneis, na mesma manhã.

Pegou-se surpreso, no entanto, que seu acompanhante era Paul. Tantas oportunidades, com minha vida e a de Arash em risco. Não era uma sensação confortável, era longe desse estado. Por sua natureza desconfiada e cuidadosa, não fornecera muitas informações sobre o que fazia ou deixava de fazer na ilha, durante a conversa e o café da manhã produzidos pelo homem. O excesso de cuidado poderia justamente ter lhe garantido a vida até agora. Caso… não tenha nos deixado vivos a pedido da Siena , lembrou-se, com a memória de sua última conversa. A gata havia falado que não perdoaria a próxima vez que se encontrassem, deixando a coruja e o chacal partirem sem mais problemas em retorno de terem salvado-na do tiroteio.

“Acredito que já tivemos essa conversa antes, Paul.” Contraiu o focinho. Não estava enraivecido pela aparição surpresa, via toda a situação como um desenvolvimento natural do que plantara: envolveu-se demais com pessoas relacionadas à sua caça. “Não me interessa o que rebeldes fazem ou deixam de fazer. Eu tenho meus motivos para aceitar contratos.” Semicerrou os olhos. Pôde sentir a provocação de Paul, mas pouco lhe importava. “Iremos atrás de Kamshad.”

Irus sempre teve um gênio de poucas palavras: não se entretia com conversa solta, e respondia perguntas feitas a si o mais direto possível, querendo evitar contratempos ou mal-entendidos. Durante sua infância, isso lhe rendeu o isolamento das crianças vizinhas e de muitos dos adultos, que sentiam sua falta de inocência e infantilidade como uma afronta à seus próprios filhos, além do fato de que sua raça não era uma das mais bem vistas no mundo. Entretanto, a personalidade quieta e sensata não foi de toda prejudicial: seus pais não tiveram de lidar com uma criança hiperativa, que eventualmente atrapalharia o trabalho árduo e demorado na forja. Também não se preocuparam com o estágio de rebeldia comum aos jovens, pois Irus não apresentou quaisquer sintomas ao atingir tal idade. Em última menção, e de benefício próprio, não agregou muitas amizades - as poucas que obtivera foram o suficiente para si. Poucas, mas verdadeiras.

O homem não economizou exibição para ir a seu encontro, balançando suas maças como meras penas, soltas ao ar. Tentou lhe acertar com duas batidas, mas todas friamente repelidas com Solar. Não fora um movimento belo de sua parte, era chato, sem-graça. Contudo, não estava ali para um espetáculo de piruetas, estava ali para uma caça. Pouco lhe importava a beleza do movimento. E Paul não é um qualquer , notou, assim que Solar fora presa em suas duas pontas, uma por uma das maças de seu adversário, e outra por sua perna. Contraiu a maçã do rosto, e quase soltou um rosnado. Pôde sentir o frio assumir a forma de um pequeno carrapato, mordiscando-lhe atrás da orelha inquietamente quando o homem pegou movimento e bateu contra sua velha companheira. Mas não vacilou, não deixou qualquer ruído fugir por entre os dentes, do mesmo modo que Solar não ousou quebrar. Anos e anos de molda com lingotes de boa qualidade, tempo e dedicação não a deixaram ceder. Definitivamente era um bom dono, e tinha um orgulho sólido quando vinha à armas. A forja que seu pai lhe passara era grande parte de sua história.

Contudo, não esperava uma nova aparição de Siena. A gata foi sorrateira, abusando da distração de sua luta com Paul, assim como fizeram contra Vendrick. Agora, no entanto, era sua vida em risco. Sentiu seus músculos contraírem em resposta ao electro utilizado em sua lança, que imediatamente refletiu para si. Sua pulsação acelerou rapidamente, sua respiração tornou-se ofegante, e o maldito carrapato teve filhos, que espalharam-se pelo seu corpo numa velocidade desmedida. Mas, diferentemente de seu progenitor, não traziam frio, e sim irritação pelo desvio no caminho que estava sofrendo, além da óbvia dor dos ataques que recebera, tendo o último pressionado seu corpo contra a terra negra da floresta.

Estava caído, largado ao chão, com sua lança a poucos centímetros de si. O corpo chorava por descanso, porém seus pensamentos ditavam o justo oposto. Não posso ficar parado, com dois que me querem morto. Olhou de canto para Solar ao seu lado e semicerrou novamente os olhos. Chegou a soltar um gemidinho fanho quando uma agulhada atingiu-lhe o peito. Parecia que, além dos carrapatos, parasitas passeavam pelo interior de suas veias, impedindo-o de se movimentar sem que a dor o mordiscasse. Droga- expirou, ainda observando a velha amiga a seu lado. Um condutor… um ótimo condutor.

Contou quatro respirações rápidas e um piscar de olhos. Cerrou os dentes e, num movimento que o deixou como um quadrúpede, jogou-se para a lança, arrependendo-se amargamente pela dor sentida. Gemeu em reação, o olhar fixo na movimentação dos dois adversários logo à frente. Siena não está mais em condições de continuar, um novo movimento e ela cairá no chão. Agora, Paul... apertou os punhos na haste tão familiar.

“Eu não irei me repetir.” Sussurrou como uma curta resposta a todas as falas, embora ainda arfasse entre uma palavra e outra. Detestava fazê-lo.

Partiu para cima com qualquer resto de energia que possuísse no momento. Como seu corpo permanecia parcialmente debilitado e choroso, correu rente ao chão, utilizando de seu braço esquerdo quando uma das pernas vacilava, enquanto o outro braço segurava Solar firmemente contra seu próprio peito. Quando chegou perto o suficiente, seguiu a liderança inesperada de Siena - sua mão direita começava a ganhar carga, que refletia pela lança e pelo resto de seu corpo. Seu pelo negro ganhou brilho, com pequenas descargas elétricas piscando conforme os fios arrastavam-se um contra o outro. Chegou a contrair os lábios e abri-los o suficiente para seus dentes ficarem parcialmente à mostra, numa reação involuntária ao esforço que a movimentação exigia - parecia uma verdadeira besta eletrizada. Dessa vez, no entanto, era o próprio gerador: a energia circularia perfeitamente entre si e Solar, não tomaria dano algum por ser um circuito fechado - ao menos até atingir Paul.



@Angelique

This post has been edited by Seth: Mar 28 2018, 10:57 PM
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Angelique
 Posted: Apr 4 2018, 12:08 AM
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Angelique




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Ouviu os planos de Siena e a provocação de Paul, sentindo-se incomodado por deixar Kamshad se distanciar enquanto haviam aqueles estorvos próximo de si, barrando seu avanço. Tirou seu tempo apenas sendo um bom ouvido para os inimigos, então assim que respirou o suficiente para trazer oxigênio para seu sangue com veias contraídas pelo choque elétrico, ele saltou para o lado, ficando de quatro com a lança em mãos, o que era uma imagem um tanto assustadora. Seu corpo de pelos negros mesclavam-se com a escuridão da noite e mais ainda pela mata fechada, dando a imagem de que era maior do que realmente era. Mostrou levemente as presas e respondeu rispidamente a Paul, saltando na direção deles como uma criatura selvagem e na medida em que se aproximava, rapidamente sua pelagem tornava-se azulada em que faíscas percorriam ali e aqui, percorrendo todo o seu corpo e não apenas sendo gerada internamente, parecia ter um tanto de excesso que passava por sua pelagem. Cada passo gerava mais estática e trazia mais poder à sua habilidade.

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Estava diante de Paul e como se retirasse manualmente a eletricidade do peito, onde estava Solar, ele a erguia como se realmente tivesse um raio em mãos e toda a carga começava a se direcionar para o metal, onde se ergueu e desceu aquilo como um golpear dos deuses enfurecidos. Paul fez uma careta por já prever o dano que aquilo daria para si e tentou bloquear e revidar o golpe para não apenas receber de graça.

Ergueu uma maça para se defender lateralmente enquanto a outra vinha reto na direção do abdômen do chacal, porém era esforço inútil. Irus desferiu aquele raio de cima para baixo, aproveitando de seu tamanho e força para somar com a gravidade e ignorar totalmente a defesa do homem. Assim que Solar bateu contra o metal, instantaneamente paralisou a musculatura do braço dele enquanto a carga dupla que carregava se desenrolava pelo corpo dele, energizando o interior do homem e até o fritando internamente, provocando um choque de luz que saía de seus olhos e boca. Um trovão retumbou ali, fazendo as copas das árvores se mexerem enquanto derrubavam algumas folhas.

O chão abaixo de Paul tornou-se queimado, visto que raios sempre vão em direção da carga negativa da terra e com isso, ele apenas ficou parado na frente do chacal que conseguiu cravar Solar no ombro dele, porém não gotejava sangue, pois o calor atribuído houvera estancado a sangria naquele ferimento feio. Ele estava com o branco dos olhos para Irus e a outra maça, usada para atacar, encostada nos gomos da musculatura da barriga de Irus e sua pelagem ainda conduzia eletricidade, batendo nas pontas da maça como que atacando o metal que o puxava, porém eram fracas e saíam finas, estalando fracamente.


- Senhor Paul! - Siena estava atrás dele e havia protegido os olhos com os braços, porém assim que conseguiu retornar ao combate, via que Irus estava retirando sua lança do ombro do homem, que relaxou e caiu de qualquer jeito, sobre si como uma borracha. Ela pegou suas adagas, porém tremia na base, ciente do erro de ter dado um choque no maior e agora, ferida e sem a ajuda do poderoso Paul, ela basicamente estava indefesa contra Irus. Mesmo intimidade e com a pelagem ouriçada, ela se manteve de pé e deu um passo para iniciar uma corrida em direção ao chacal, porém no segundo passo ela já desistia e cuspia sangue na mão, olhando com um típico olhar afiado de felinos, soltando seu próprio sangue no rosto do outro mink, almiscarando os demais cheiros da floresta e deixando apenas o ferroso, porém por mais que aquilo houvesse funcionado antes, agora era só uma finta. - Você não irá pegar Kamshad! Ele é o nosso líder! Ele irá salvar Parthevia! Você só se importa consigo?!

As mãos fechavam a guarda enquanto tremiam um pouco, não conseguindo realmente manter-se em combate, pois o corpo já estava no limite, porém ela não desistia pela sua causa.

Sons de tosse e de terra se mexendo, agora Irus conseguia visualizar Paul se levantando enquanto ele próprio cuspia um pouco de sangue, tendo dificuldades para se levantar, pois seu grande corpo não queria cooperar. As pernas pareciam bambas e os braços sem força, porém ele via que o chacal estava muito próximo de Siena e ainda mais, por ter sangue em seu rosto, ele parecia que houvera mordido-a como um verdadeiro chacal faria com sua presa após abatê-la e isso o assustou, recebendo uma dose de adrenalina o suficiente para se levantar enquanto ele pegava sua maça como um pedaço de pau qualquer e acertava o ombro de Irus, que doeu, mas não era exatamente o que ele esperava. Não conseguindo derrubá-la com aquele ataque, Paul desferiu alguns socos nas costelas de Irus que o acertavam sólidos, porém não tinham metade do impacto que deveriam ter. Vendo ser inútil, ele saltou até Siena e a abraçou.


- Solte-me, Senhor Paul!

- Jamais, Siena! Você está machucada! Eu a protegerei desse... Dessa coisa! - Ele apontava a maça para Irus enquanto estava agachado com Siena no outro braço, apoiando para que ela se mantivesse de pé, mas como era mais baixa, ele estava quase ajoelhado.

- Eu sei cuidar de mim mesma! - Sua pelagem tornava-se azulada na medida em que ela carregava na palma mais uma ElecBall, porém um pio chamou a atenção do trio. Arash aparecia com Kamshad, sentada em seus ombros e com suas garras pressionadas a ponto de manchar a roupa do homem que tinha as mãos restringidas, não podendo realmente lutar contra a ave empoleirada sobre si. Sua face estava toda arranhada e ele parecia cansado demais para tentar fazer qualquer coisa e se ele não fosse na direção que a coruja quisesse, ela apertava mais a ponta das garras contra a carne do homem, tratando-o como um mero rato esperando virar refeição.

- Parem logo com isso... Eu não vou a lugar algum... - Ele falava sem ânimo algum e Siena desfez no ar a eletricidade, virando uma pequena nuvem que se dispersava. Ela o olhou assustada pelo tratamento que a coruja o fazia, então, enraivecida, uma nova corrente passou por todo seu corpo, repelindo Paul e fazendo-o cair sentado para o lado em que ela ia na direção de Arash, que olhava-a por cima sem o menor medo da gata que vinha dando passos largos para cobrir mais terrenos do que passadas normais ou corridas, quase pulando. Assim que estava próxima o suficiente para acertar a coruja, ela saltou do ombro de Kamshad e o jogou contra Siena, que logo dispersou a eletricidade e abraçou o homem, mas não aguentando o seu peso, caíram ambos no chão, onde ela desmaiou de imediato.

- É uma pena que ela não venha a concluir seu propósito... - Kamshad se levantava de qualquer jeito, parecendo uma lagarta sobre Siena que não servia mais do que um colchão para ajudá-lo a se levantar, sem ao menos se importar com o ferimento da garota. Conseguiu se colocar de pé e olhar para Irus com o olhar cansado. - Você sabe? Siena é a minha seguidora mais leal. Talvez vocês caçadores não compreendam algo como isso, mas sabe qual o ponto máximo disso? O auto sacrifício... Talvez eu ainda tenha uma surpresa para você, caçador. Você quer me deter? Ok, sem problemas. Eu sou apenas um peão. Você quer dinheiro, eu lhe pago minha recompensa e fica por isso mesmo, mas se o seu problema for politicagem, saiba que há problemas maiores do que eu para que você se preocupe... A menos que não ligue para os civis... - Ele sorria malicioso e Arash fazia movimentos com as asas, desaprovando e ameaçando o homem com suas garras em pleno voo, fazendo encarar o animal sem ânimo algum. - Aquele garoto me chamou de "assassino", não é? Você não deve saber o quão bom eu sou com explosivos, não é...? Deixe-me ir e eu desativo meus planos, mas saiba, que eu voltarei. E eu voltarei mais forte, pois esse povo não merece aquele rei idiota. O que fará, caçador? Seja sensato consigo mesmo... Realmente vale toda essa dor de cabeça? Quer mesmo ficar do lado de corruptos e tiranos?

Arash pousava agora no ombro de Irus e virava sua cabeça totalmente para a esquerda e depois para a direita, observando em volta, pois algo havia chamado sua atenção, algo que não o assustava e com isso, abaixou a cabeça e coçou a cabeça com a pata esquerda, olhando logo em seguida para Irus, aninhando-se em seu pescoço, fazendo um afago no dono.

Suas narinas estavam impregnadas com sangue e com isso, ele não sentia os odores que chamaram a atenção de sua coruja, mas por sorte, suas orelhas também eram boas como a do animal e com isso, ele ouvia de longe que alguém adentrava na mata e não era um e por algum motivo, a ave nem ao menos se importou com isso.

As possibilidades é de ser Vendrick e com isso, não era visto como uma ameaça ou ainda, a Marinha vindo ajudá-lo a prender Kamshad. De qualquer forma, os rebeldes nem ao menos fizeram menção de qualquer coisa (por não terem ouvidos e narinas tão especiais e quem o tinha, estava desacordada) e se fosse de seu interesse, Irus poderia fazer qualquer barulho ou chamação que achasse necessária para facilitar sua localização.
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Seth
 Posted: Apr 14 2018, 06:45 PM
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O circuito estava fechado. Não havia dúvidas quando sentiu os pelos eriçarem, mas nenhum cheiro de queimaduras ou dor muscular acompanhou os fios assim que disparou para a corrida. Ao pular do impulso agregado, no entanto, seu corpo tencionou. A eletricidade aproveitou-se de cada veia e cada líquido que percorria o corpo negro do Chacal, dos pés às pontas das orelhas, consumindo-o em tanto desespero quanto o próprio dono buscava seu encontro com o adversário. Os lábios estavam contraídos, exibindo seus dentes brancos e afiados, que agregavam o brilho expelido pela eletricidade, num contraste de cores entre si e o pelo negro. Era impossível evitar fazê-lo: a lateral de seu tronco doía, ainda estava machucado em sua perna e o cheiro de sangue de Siena estava forte demais, incômodo. Como qualquer outro, arquear os músculos do focinho em momentos de dor nada mais era do que uma reação comum, além da contração do resto do corpo, incentivada pela adrenalina e a clara eletricidade excessiva. A única quebra de sua iluminação azul vinha de seus olhos, dourados como ouro, quase produzindo uma luz própria em meio a escuridão da noite. Sua intenção não era tornar-se uma besta, no entanto, mas devido à todas as circunstâncias, sua aparência assumiu involuntariamente tal forma animalesca peculiar, capaz de remeter qualquer um à um monstro.

O encontro foi inevitável - Paul não fez menção de desviar, provavelmente preocupado com a gata atrás de si. Em compensação, levantou suas maças, buscando defender-se com uma e revidar com a outra em movimentos seguidos, mas sua tentativa provou-se parcialmente falha quando seus olhos e sua boca brilharam azuladas, em conjunto a um cheiro fraco, porém presente, de carne e cabelos queimados. O curso de Solar, apesar de inicialmente desvirtuado, desencadeou a eletricidade acumulada, do mesmo modo que Siena fizera consigo minutos antes, mas em menor tensão. Seguinte ao brilho e cheiro foi o encontro entre a lâmina de sua lança com o ombro do homem: por causa da temperatura da queimação, nem uma gota sequer de sangue escorreu do ferimento causado pela perfuração. A parte funcional de seu plano, no entanto, fora sentida pela barriga do canino - estava com a musculatura contraída, perfurada pelos espinhos da arma do adversário e dolorida como o resto de seu tronco. Não sabia dizer se sangrava pelos ferimentos, sua narinas já estavam lotadas com os cheiros de Paul e Siena.

Retirou Solar do corpo do homem, que caiu duro, sem qualquer apoio. Sua fala saía sem fôlego, pelo esforço executado na última movimentação “...recomendo... que não se movam-” Mas a gata não esperou. Pôs-se de pé, partindo em sua direção, para logo cair junto a Paul, cuspindo uma nova leva de sangue. Para o desconforto do chacal, fora perto o suficiente para atingir seu rosto, banhando-o na altura da maçã do rosto, quase nos olhos. É claro, havia usado a ocorrência como uma ameaça ao caçador, esperando que este tomasse uma medida agressiva - mas tudo o que ele fez foi levantar a mão livre e usar o pano do pescoço para limpar a mancha, apesar de ser impossível ver-se completamente livre sem enxaguar com água. Era um indivíduo de gênio calmo, como já havia notado, e a situação de conflito na qual estava também havia sido avisada pela gata. Não havia porquê acumular ódio ou sede de sangue. Era uma consequência de seus atos e de ter se envolvido com a presa. “...principalmente você, Siena.” Franziu o focinho, ainda incomodado com o cheiro. “Se ele não é o único líder, outros poderão salvá-la... não estou aqui para me envolver nos assuntos de vocês, então poupem o que resta de fôlego em seus pulmões-” , interrompeu-se, acariciando o machucado em suas costelas. Eu também não estou nas melhores condições para gastar energia em conversas. Me repetir é… exaustivo. “E não irei continuar essa luta-”

Cortou a fala. Viu Paul colocando-se de pé novamente, mas com clara dificuldade: seu corpo estava incerto sobre as ações, ainda afetado pela tensão elétrica que lhe antigira minutos antes. Provavelmente sentia muita dor no ombro, onde Solar o perfurou, além da dormência em alguns membros das pontas de seu corpo, como ocorrera consigo, justificando a tremedeira e o movimento instável. Contudo, não soube dizer de onde, uma energia inesperada agregou-se nos braços do rebelde, dando-lhe força o suficiente para balançar uma das maças e acertar o ombro do chacal, cravando os espinhos em seu pelo negro outra vez. “Argh-” Não segurou o gemido, porém também não caiu. Notando a insuficiência do ataque, Paul juntou uma nova leva de força e deferiu diversos socos no mink, em uma rápida sequência, nas costelas que ferira durante o começo da luta - mas esses já estavam sem qualquer força. Em resposta, o Chacal somente sentiu o ar de seus pulmões ser forçado para fora, e o liberou abruptamente, embora sem qualquer som. A fraqueza abraçou o homem como uma manta fria, estava impotente e dominado pelo calafrio que percorria-lhe as espinhas de uma batalha perdida e do risco que sua vida corria, caso Irus viesse a terminá-la. Ao tocar sua pele com a dita manta, desistiu de insistir em uma luta que não venceria. Parecia saber em seus olhos que tanto suas chances quanto as da gata não mais existiam ali. O que lhe restava agora era ir para perto de Siena, criando um escudo com seu próprio corpo exaurido de energia.

“...Eu não vou continuar isto-” Clamou o chacal novamente, após observar o desespero de Paul. Sua respiração permanecia ofegante pela nova e pequena descarga de adrenalina, numa reação aos golpes do homem que tomara inesperadamente. Não revidou a agressividade, no entanto. Não era de sua natureza gentil finalizar oponentes ou presas sem qualquer bom motivo, ainda mais quando esta buscava proteger alguém e não tinha mais forças para reagir, do mesmo modo que não deixava feridos ainda vivos para morrer, sem qualquer auxílio ou ajuda. Levantou os olhos para os dois, o focinho ainda franzido. Quando Siena começou a recarregar um outro Electro, aumentou o aperto na haste de Solar, receoso. Estava pronto para usá-la como apoio e desviar para trás, evitando mais dano - mas sua ação não se fez necessária. Um som familiar atravessou seus ouvidos, seduzindo-os como o abraço de sua mãe. Um piado familiar, uma voz que cuidava: seu dono era ninguém menos que Arash. Seus olhos foram levados até o companheiro, parando imediatamente ao notar que não estava sozinho - a coruja havia literalmente caçado Kamshad.

O homem encontrava-se num estado deplorável: arranhões dominavam seu rosto, uma grande mancha de sangue se arrastava por todo seu ombro, e, em seu rosto, uma expressão anêmica se fazia presente, numa mistura da exaustão, dor e perda de sangue que sofrera. O olhar afiado de Arash não deixava dúvidas de que não havia perdoado o líder por fugir das mãos do dono, e não o deixaria em paz até que o trabalho estivesse concluído. Para Siena, no entanto, aquilo era inescusável. Com qualquer resto de vida que possuía, foi de encontro a Arash, uma carga fraca, mas existente, do Electro carregado em uma das mãos. Queria a todo custo atingi-lo, causar dor ou tirá-lo de perto do velho homem. O Chacal arregalou os olhos. “Arash!-” Sua voz veio em um grito imediato e preocupado. Contudo, mostrou-se tão desnecessário quanto as repetições que sentia-se forçado a fazer: a coruja habilmente jogou Kamshad contra a gata, ao pegar impulso e ascender aos céus, como dois pesos mortos que seus corpos machucados os tornavam. Quando o líder começou com seu discurso, que tantas vezes Irus ouvira, começou a andar em sua direção, ainda fielmente carregando Solar. A repetição não era o suficiente para quebrar o limite de sua paciência, ou já teria ocorrido horas antes, de tantas vezes que declarou não se importar com os rebeldes. A ameaça à Arash, no entanto, era um dos poucos gatilhos capazes de fazê-lo em um piscar de olhos, assim como caso ocorresse com quem tanto amava - vê-los feridos era impensável para si. Fazia de tudo para que não ocorresse.

“Eu não quero te deter…” Chegara perto o suficiente do homem para puxá-lo pela gola, levantando-o perto de si. “Eu não me importo.” Puxou-o ainda mais perto, os olhos fixos nas pupilas do líder. Embora rosnasse cada palavra, sua expressão mantinha-se desconfortavelmente intacta, sem qualquer emoção. “Eu não me importo com o que fazem ou deixam de fazer. Eu não me importo que haja outros ou de suas relações. Eu não me importo que tenha dinheiro.” Por fim, colocou-o de pé, já em uma distância sensata de si. “Não é com você que possuo um contrato. Eu não mudo minhas palavras e somente recebo por aquilo que faço. Poupem suas palavras.”

Suspirou sutilmente. Estava a levantar o braço para puxar o pano de seu pescoço, quando Arash lhe chamou, indicando o som de passos que até então não havia escutado. Suas orelhas involuntariamente reagiram, agora atentas ao ambiente ao seu redor. Chegou a tentar puxar o ar, a procura de odores, mas, é claro, seu olfato lhe falhava, completamente congestionado por tudo que ocorrera ali na última hora. Para sua surpresa, o companheiro não estava assustado, ou agressivo, como se soubesse quem era o causador do ruído e já aguardasse sua chegada. Seus pensamentos e a situação o levaram a apostar na Marinha, pois havia um dia que não vinha o garoto loiro de cabelos espetados, muito menos tinha alguma notícia de seus paradeiros. Na verdade, ele não fazia presença alguma em sua mente, e não o faria até que algo desencadeasse sua memória. A possibilidade de serem mais rebeldes também era impensável: Siena, Paul e Kamshad não demonstravam sorrisos vitoriosos, como quem houvesse efetivamente chamado mais reforços além de si próprios. A única questão que o fez exclusivamente o velho homem sorrir após tantos maltratos era a menção de outros líderes e de sua missão para com Parthevia, ambos informações fúteis, descartadas pelo chacal. Não parecia ter recebido qualquer expressão corporal do trio acerca de uma possível chegada de outros rebeldes.

Afagou seu companheiro, antes de estender o braço para que pulasse para ele. “Irei te pedir o último favor de hoje, Arash. Cheque quem são e traga-os até aqui, no caso da Marinha. Tome cuidado.” E estendeu o membro, colocando-o em voo. Permaneceu no local, com a lança apontada para Kamshad e olhos imóveis como uma pedra. Não conseguia pensar em nada mais.



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Me perdoe pela demora, minha Mestra. A semana está complicadíssima para mim.


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Angelique
 Posted: Apr 21 2018, 03:36 PM
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Irus tinha uma aparência assustadora na hora de ameaçar Kamshad, dado o avanço de Siena para com sua companheira voadora. Ele agarrou o líder enquanto o fuzilava com o olhar dourado e riscado, algo que o velho conseguia ver a si mesmo dentro daquele globo amarelado como que derretendo sua face em meio ao mel e o ouro fervente, cortado ao meio por uma pupila negra que o separava e o pressionava contra o líquido que o afogaria, morrendo em agonia. Os rosnados tão próximos da face do velho, aquilo era realmente intimidador, pois incapacitado de lidar com o caçador, parecia que o chacal iria arrancar sua face com os dentes após anunciar que não se importava com nada e aparentemente, nem com o dinheiro, deixando a ideia de que caçava por diversão e por isso era tão centrado ao contrato que havia feito com quem quer que fosse.

- Heh... O temor do sábio se faz em três ocasiões: A noite sem luar, o mar em revolta e a fúria do homem gentil. Parece que temos dois aqui. Irei me calar, pois seu trabalho realmente é apenas me prender e não ajudar Parthevia. Obrigado por me trazer um pouco de descanso, nem que seja na cela da cadeia, caçador. - Dizia Kamshad assim que fora solto a uma distância coerente de Irus, relaxando seus ombros em um suspiro e abrindo um sorriso amigável, mas com um olhar desafiante e centrado, saboreando sua vitória.

Arash recebeu suas ordens e assim que o chacal terminou de falar, logo ele levantou voo e saiu na direção de onde vinha os barulhos, deixando que Irus tirasse um momento a sós com seus inimigos.


- Então é isso? Nossa parte está feita? - Dizia Paul deitado na grama, descansando o máximo que conseguia com o corpo dormente e dolorido, colocando um dedo para pressionar a ferida feita pela lança, porém não conseguia sentir aquele local e se impressionava em retirar o dedo e esfarelar um pouco de sangue encrostado e coagulado, cauterizado pelo golpe que havia recebido.

- Sim, meu amigo. Agora iremos para a cadeia até a espera de uma nova oportunidade. Gostaria de agradecer ao nosso entregador? - Caçoava de Irus, apontando para ele. Paul não gostava desse tipo de coisa (ainda mais por ter recebido um impacto que parecia dos céus), então apenas fechou os olhos e se concentrou apenas em respirar, afinal, mesmo que não sentisse, um corte daquela magnitude com certeza não deveria ser tratado como um mero raspão ou mesmo penetração.

Um momento de silêncio se deu até que o barulho de asas se fez e vindo em uma rasante despreocupada, Arash sobrevoou a cabeça de Irus, circulou um pouco e então, da maneira mais barulhenta, acomodou-se no braço de seu dono, ficando ereto e concentrado como sempre, observando Kamshad, não com interesse, mas como que o cuidando.

Logo em seguida, movimentação fora feita no mato atrás deles e um trio de marinheiros chegou até eles, todos com rifles em mãos. Olharam espantados para Paul com um rombo no braço que era até impressionando como ele ainda tinha a movimentação do mesmo. Seus olhares logo em seguida foram para Siena deitada desacordada com muito sangue na área do queixo até o peito, assim como suja pelos joelhos, cotovelos, palmas e por diversas manchas pela roupa em si. A imagem de Irus de pé, com a lança nas mãos e com a boca e fuça sujas de sangue davam a ideia de que era um caçador muito mais brutal do que realmente era. A atenção deles logo fora para Kamshad, onde eles ergueram seus rifles, apontando para a cabeça do homem restringido, que apenas sorriu e fora na direção deles, logo os marinheiros acharam aquilo estranho e o mandaram parar e se ajoelhar. Kamshad seguiu andando enquanto a tensão aumentava e os marinheiros engatilharam suas armas, gritando para que ele parasse e permitisse ser escoltado.


- A Marinha irá reescrever a história de Parthevia e eu irei sumir da memória de todos. Mas... - Recebeu um tiro de aviso que passou raspando pelo seu rosto, abrindo uma fenda sangrenta próxima de seu pescoço, ele fez uma careta de dor, mas seguiu falando. - A sede por vingança que plantei irá infestar o coração de todos. Ninguém pode me parar agora! - Logo os marinheiros o fuzilaram, fazendo-o cair cuspindo sangue em meio a uma poça do seu próprio. - Rei Davash... Eu estou queimando!!!

Arash logo alçou voo enquanto puxou com as garras os pelos de seu dono, os marinheiros ficaram atônitos em que deram as costas nas pressas, mas já era tarde.

Um grande clarão ocorreu e uma onda de calor empurrou a todos ali, causando uma ardência nos olhos que os obrigava a fechar os olhos que já estavam machucados pela luz, assim como um som forte deixou Irus surdo por uns segundos, ouvindo um zunido contínuo e todo o seu arredor estava no mínimo volume. Kamshad houvera se explodido e consigo, levado a clareira em que estavam, deixando chamuscado o solo abaixo de si em um círculo negro com pedaços carbonizados de ossos. O cheiro de fumaça fora mais forte que o sangue de Siena, assim como também era muito mais desagradável.

Um dos marinheiros estava deitado e com queimaduras graves nos braços, seu rifle no chão enquanto ele chorava de dor e por estar cego, só não sabia se era permanente e já esperava pelo pior. Outro fora jogado contra uma árvore e tinha metade do rosto queimado e não conseguia se erguer, pois cada vez que colocava a palma direita no solo, fraquejava e caía, tentando com a esquerda, porém havia batido com as costelas na madeira e agora estava fragilizado aquele lado. O terceiro parecia estar em melhores condições, apenas com as vestes chamuscadas, ele estava com dificuldades na respiração pelo tecido queimado e obstruído suas vias nasais enquanto se recuperava da explosão, tendo arrancado os restos, mas ainda assim estava respirando pesado e tossindo, com leves queimaduras pelo peito e pernas (não estava nu, porém trajava uma "bermuda" e e sua camisa virou um trapo segurado pelo ombro).

Paul estava sobre Siena e queimou totalmente suas costas, que estavam vermelhas e isso ele sentia, mas não desgrudava de cima da menor, abraçado. Movimentava o tronco com dores, tremendo enquanto ele próprio já estava em seu limite.

Irus houvera recebido o impacto mais pelo calor do que por qualquer outra coisa, sujando-se bastante de fuligem e seu pelo o protegeu de pedaços de ossos que saltaram sobre si, tendo pequeninos emaranhados em si, mais parecendo pedras brancas e negras em sua pelagem do que restos de um homem considerado criminoso pela Marinha. Arash, por sua vez, estava caído de barriga para cima no meio da grama, se debatendo um pouco enquanto virava o corpo, mas não conseguia ficar de pé, talvez tendo quebrado uma das patinhas, ambas com as garras quebradas.


- Você... Está bem...? - O marinheiro se aproximou de Irus e o tocou, puxando seu manto que era usado para mantê-lo disfarçado entre os humanos e isso o protegeu das fumaças e calor da explosão, tendo-o chamuscado levemente. Uma desagradável surpresa se deu no momento em que o marinheiro baixou o tecido que estava sobre a fuça do maior, pois a expressão de desgosto na face do outro era conhecida. Ficou entre a ideia de dever em proteger os cidadãos e seu preconceito próprio por "aquela fera", ponderando um momento em que estava sobre o outro. Demorou um pouco, mas repensou seus atos (mais por já ter sido visto) e pegou um pedaço de tecido, passando em sua mão como se a mesma estivesse suja e ele não quisesse que o outro também ficasse sujo (apesar da realidade ser bem o contrário), oferecendo para que se levantasse.

O outros marinheiros começaram a se ajudar, um tentando confortar o outro que houvera sofrido o pior daquilo, mas à distância, falando com uma calma segurada, pronto para entrar em pânico no primeiro momento que desse, pois estava basicamente enterrado na terra e sem saber direito o que houvera ocorrido ali.

Paul agora soltava Siena, caindo para o lado, mas não de costas, ficando deitado de lado como um animal abatido que era, arfando enquanto cada tragada de ar o machucava por dentro, se encolhia em posição fetal, pois o ajudava de certa forma, nem que fosse no psicológico.


- Faça seu trabalho, caçador. Nos tire daqui e reclame sua recompensa. Não é isso para o que veio? Mesmo que Kamshad tenha ido antes de nós, meu coração ainda é com os rebeldes. - Siena falava amargamente enquanto erguia a palma para os céus e segurava o vento, como se a alma do velho houvera passado por ali, passando seus dedos nos dela pela última vez, dando seu adeus antes de realmente se encontrarem apenas do outro lado. Ela fechou os olhos e abriu um sorriso satisfeito.

Tão logo a gata abriu o sorriso, uma segunda explosão e essa de uma magnitude muito mais extensa, ocorreu. Na direção de Parthevia, era possível avistar (mesmo em meio ao mato), que o céu estava alaranjado e longas fumaças subiam aos céus. O castelo era grande e chamativo, logo, era fácil ver de onde vinha e de alguma forma, Kamshad era o gatilho daquilo, desencadeando um novo estouro na pedra e era difícil de dizer sua origem.

Mesmo após o combate e com o corpo debilitado, Irus ainda tinha energias para seguir, estando meio duro, porém móvel. Poderia abandonar os marinheiros e a dupla de rebeldes e ir ver o resultado daquilo ou tirar seu tempo para carregar suas recompensas em direção do Comodoro Ryan enquanto pedia ajuda médica para os marinheiros, isso se não desse prioridade para ele. Na verdade, tudo se resumia a o que ele colocaria em primeiro lugar e tendo em mente, o que era importante para si, não somente em questões egoístas, mas para sua própria moral.
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Seth
 Posted: Apr 23 2018, 11:16 PM
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Abriu levemente a boca, dando a impressão de que retrucaria alguma das falas dos presentes ali, mas nenhuma palavra saiu de suas traquéias para o mundo. Era inútil, desnecessário. Qualquer resposta se mostraria indesejada, tanto pelo trio de rebeldes, quanto por si próprio, afinal, nada fora o que fora contratado para fazer cabia a sua responsabilidade - com exceção de raríssimos casos, mas podia afirmar que aquele certamente não era um deles. Estivesse sendo caçoado pelo velho líder, ou por algum de seus subordinados, não lhe afligia. Na sua frente, só havia um homem derrotado que fazia forças nas pernas para manter-se de pé, a pele preenchida com arranhões e hematomas de uma fuga mal-sucedida, e seu contorno encoberto pela ilusão do tão perto - e agora tão distante - título de herói da revolução em Parthevia. A Marinha certamente esconderia o nome do homem, pondo-o como um mero criminoso. Conforme suas palavras, não estava sozinho: outros líderes de patamar alto como o seu também tratavam de fazer o grupo de rebeldes funcionar, mesmo com a ausência de alguns por alguma inconveniência - no caso, a sua. Poderiam ignorar o insucesso do escape do líder de suas garras com a certeza de que a revolução ocorreria de uma maneira ou de outra. E eles sabem disso. Uma palavra minha faz-se desnecessária. No fim, Kamshad trocaria seu nome pelo sucesso do que quer que estivessem planejando.

Arash voltou não muito tempo depois, o som de suas asas forçando o ar a seu favor, moldando-o como bem entendesse e como bem quisesse durante o voo. Eram grandes, exageradamente grandes para o que conhecia sobre outras de sua espécie, tirando-o da classificação de anomalia e dando-lhe quase que uma outra espécie, inteiramente dedicada a seu tamanho, que há muito tempo já havia passado do que veterinários tratariam como uma simples mutação. Nunca vira o companheiro diminuir sua taxa de crescimento, em todos os anos que passaram juntos, media-o rigorosamente uma vez por mês, e tal valor mantivera-se intacto desde quando assumira o hábito. Chegava a perguntar-se se algum dia pararia, apesar de ter esquecido-se da existência dessa pergunta por pura rotina e costume. Preferia deixar a sua altura final um mistério, já que não realmente lhe importava o quão grande o companheiro viesse a se tornar, permaneceria a seu lado até o fim de seus dias. O dito mutante deu uma volta metida no ar, antes de pousar em seu lugar costumeiro - nos ombros largos do dono. O som de passos e folhas sendo perturbadas fora o suficiente para garantir que havia trazido companhia consigo. Então, era mesmo a Marinha, concluiu, por fim. Afagou o pescoço penoso do amigo, num carinho sutil tão diferente do toque que usara minutos antes, na luta contra os rebeldes. “Obrigado, Arash.”, sussurrou docemente, as palavras perdendo-se entre os dois.

Três contornos masculinos tomaram forma numa respiração após o pouso da coruja. Estavam equipados com rifles e, como qualquer um que chegasse e visse a cena brutal em sua frente, arregalaram os olhos, procurando, aos poucos, entender o que realmente havia acontecido no local.

“Como discutido com o Comodoro, Kamshad.”, tornou a falar, indicando o líder com a cabeça. Havia parado de passar os dedos pelas penas de Arash, e agora limpava o que pudesse do excesso de sangue que banhava seu rosto com o pano ao redor do pescoço, caso ainda houvesse alguma parte líquida. A maior parte já parecia ter secado, e assim como Paul, esfarelava com o atrito de seus dedos. Era uma sensação muito desconfortável. “Os outros dois precisam de médicos, mas não irei conseguir carregá-los sozinho. Há mais algum grupo da Marinha por perto, ou-”

Cortou a voz assim que notou a movimentação de Kamshad: o homem caminhava sorridente na direção dos marinheiros, como se a situação toda houvesse retornado para o controle seguro de suas mãos. Um passo por vez, não fazia menção de parar, cada vez mais próximo dos três, ignorando as ordens e os comandos para fazê-lo, além das ameaças de tiro. Apontaram os rifles para sua cabeça, num último anúncio das consequências, mas não houve efeito algum. Irus fechou as mãos num aperto forte novamente, ao redor da haste de Solar. Estava receoso, embora a emoção não se expressasse em seus olhos e rosto. Se não conhecesse o pouco que vira daquele homem, diria que o mesmo estava louco por não escutar aqueles que possuíam sua vida por um gatilho. Contudo, sabia que não estava. Havia algo mais que iria recorrer, ou não vestiria o dito sorriso com tanta facilidade quanto arriscava-se a continuar sua caminhada. Irus preparou Solar em seu braço direito, acompanhada de um passo para frente. Seu olfato estava congestionado, seu corpo cansado, somente com algum esforço que suas orelhas trabalhariam a seu comando, mas não em seu melhor estado. Reforço?, perguntou-se, lembrando do aparentemente Capitão, que fizera negócios com Kamshad horas antes. Não…, remexeu as orelhas, Os piratas saíram para outro local, não é possível que esteja esperando outro grupo e- Quando fez menção ao segundo passo em meio aos próprios pensamentos, no entanto, um tiro rompeu a cena, pegando de raspão na bochecha do líder, surgido de um dos rifles do marinheiros. Ainda assim, ele não parou. Somente lhe foi dado um último segundo antes de mutilarem o resto de seu corpo com as balas estouradas.

Irus virou o rosto para longe, tentando se proteger num reflexo quase imediato. Sentiu agulhadas em seus ouvidos, perfurando os tímpanos tão sensíveis quanto seu olfato, porém estes últimos ainda estavam obstruídos pela mistura do cheiro ferroso do sangue, poeira e suor, então pouco fora atingido pelo odor do local. Não era a toa que evitava a produção de armas de fogo: o som alto e estourado que estas faziam pareciam ensurdece-lo mesmo minutos após o acionamento do gatilho, acompanhado pelo cheiro terrível que a pólvora exalava. Não importava quantas produzisse, sabia que nunca tornaria-se acostumado a todo malefício que algo tão pequeno poderia causar aos seus sentidos. O pior, no entanto, ainda não havia aparecido: uma explosão, num ato suicida de um líder sem mais escolhas para escapar. O anúncio foi somente um, com Arash disparando em voo e puxando o dono para o mais longe possível do raio do líder. Para alguém tão sensível como o chacal, a grande leva de tiro havia lhe atordoado e impedido de reparar em qualquer indício da futura explosão.

Gritou de dor. Gemeu repetidamente, mas não conseguia nem ouvir a própria voz. Havia caído no chão de joelhos e com as mãos sobre as orelhas, seu estômago sendo dominado um mal-estar horroroso que o teria feito vomitar se não fosse pelas horas de caminhada com o órgão vazio desde o café da manhã, na espera do almoço. Estava zonzo. Sentia-se tonto e desnorteado, como se houvessem girado-lhe o corpo por um tempo indefinido, antes de largá-lo à própria sorte na floresta - e sabia que esse era um dos motivos pelo qual agora encontrava-se não mais de pé. Seu sentidos, muito mais sensíveis que grande parte dos humanos, foram atacados tão rápida e surpreendentemente que não conseguia se concentrar em nada ao seu redor. Kamshad equipara-se com explosivos e não notara? Havia chegado reforços? Teria a Marinha acionado algo por falta de cuidado? Arash- Escutou outro estouro, e, junto dele, uma nova onda de tontura o consumiu da nuca até os olhos, fazendo sua cabeça pesar contra o chão. A dor era insuportável, e a falta de qualquer ruído além de um zunido constante e afiado o deixavam sem qualquer base para poder se recompor. Acabou gritando novamente, esperando inocentemente que algo lhe voltaria, porém já estava sem forças - restava-lhe muito pouca. Ainda não ouvia a própria voz.

O cheiro de carne, terra e mato queimado não tardou a vir. Por estar com a boca aberta para os gritos inaudíveis executados por suas traqueias, ele subiu facilmente pela garganta, forte e poderoso graças aos excesso de pólvora e combustível para consumir. Apesar do cheiro ferroso do sangue ainda ser presente, fora facilmente engolido pelo novo odor, que a cada segundo que passava tornava-se mais forte com a ajuda do material de sobra que a floresta lhe dava, de leve mau grado. Era terrível. Enquanto as agulhas perfuravam seus ouvidos, o bafo quente do carbono e da fumaça corroíam sua garganta, resultando numa tosse seca, sem ter ao quê recorrer pela ausência de água ao redor. Não contou quantas, mas imparáveis lágrimas, tão ácidas quanto a fumaça, escorregaram de seus olhos, passeando por sua maçã do rosto e acompanhando cada formato dos ossos em seu caminho, até finalmente pingar de seu queixo. Repetiu a tosse incansavelmente, chegando a remover quase todo ar de seus pulmões com o excesso de força que fazia-se necessário para expulsar a dita nuvem tóxica de seu sangue. O alívio parecia não querer vir, fugindo de suas mãos sem deixar uma ajuda sequer para trás.

Abriu os olhos, ainda tossindo. Quando sentiu-se mais confiante sobre seus próprios movimentos, tateou o pescoço na busca de seu cachecol vermelho, e puxou-o até cobrir o que conseguia do focinho. Tentou sentar-se para checar o companheiro e a cena ao redor, mas a tontura logo veio a pesar sua cabeça para baixo novamente, negando-lhe qualquer movimentação que precisasse de seus ombros para cima. Começou um outro gemido, mas que facilmente assumiu a forma de uma tosse agressiva em resposta a falta de controle do corpo. Nunca imaginou que chegaria numa situação parecida, ou que Kamshad faria o que fez.

Fechou os olhos novamente, dando a si próprio mais tempo. Seus dedos fizeram força contra o focinho, buscando ajustar melhor o filtro improvisado que todo bom pano poderia fazer contra odores ou poeira. Uma, duas, três respirações... quando conseguiu puxar o ar para dentro dos pulmões sem as tantas falhas que antes teve, voltou a abrir os olhos, remexendo-os de um lado ao outro. A tontura ainda não o largara, mas certamente estava menor, e o mesmo também aplicava-se ao zunido. Não poderia contar, no entanto, com muito de qualquer um de seus sentidos, por agora serem tão inúteis quanto os de um recém nascido, graças a todo o dano que sofrera.

“Arash-”, gemeu repetidamente, até finalmente seus ouvidos receberem o contorno de sua voz. Ouviu um piado fraco do que acreditava ser alguma resposta, quase inaudível e logo a frente de onde estava deitado. Quando levantou o pouco que conseguia de sua cabeça, notou o grande amontoado de penas brancas, também de barriga para cima e sacudindo-se desconfortavelmente. Tentava pôr-se de pé, mas quando exercia força sobre uma das patas, voltava a cair. Estava ferido. Muito ferido. “Arash-?” Arregalou os olhos. Sentiu o coração apertar dolorosamente, quase em um surto da informação que chegava aos olhos - somente em um momento vira Arash nesse estado, e este fora quando encontraram-se pela primeira vez. Desde que uniram-se para as viagens, não imaginava chegar a vê-lo assim novamente, numa promessa própria de que faria de tudo para impedi-lo. Seu gênio cuidadoso provava-se, nesses momentos, de não ser de uso exclusivo próprio - era também para proteger àqueles que tanto amava. Não pensou mais direito. Trancou o amontoado de problemas que afligiam seu corpo negro e cansado. Com alguma adrenalina que encontrasse restante, foi para seu lado, afagando o focinho no peito branco do animal e ajudando-o a se recompor. Forçou-o a não utilizar de sua perna - na verdade, queria carregá-lo no colo, mas suas condições atuais fariam os dois caírem no chão antes mesmo de estarem completamente erguidos. Então, tudo o que fez foi dar-se como apoio para o tão amado amigo. Quando este ajeitou-se de maneira mais confortável possível no momento, pôs seu pescoço e o peito sobre o corpo de Arash, como uma mãe protegendo o filhote. Queria impedi-lo de se mover e agravar ainda mais sua situação. Como fui tão descuidado?, finalmente se perguntou, embora continuasse aflito. Franziu suas sobrancelhas cortadas, como tão pouco fazia. Seu focinho afundou-se nas asas do companheiro. Deveria ter examinado Kamshad após sua captura.

Ficou ali parado por algum tempo, conforme cada marinheiro recuperava-se do atentado suicida do ex-líder. Não observava nada ao seu redor, se não o desconforto da coruja em seu peito. Suas garras também estavam quebradas, um tanto preocupante por deixá-lo impedido de caçar - mas essas cresceriam novamente, com o passar dos dias. A maior preocupação, por agora, era a fratura em uma de suas patas. “Aguente um pouco, por favor.”, sussurrou em seus ouvidos, enquanto ainda afagava o nariz gelado no companheiro. Não possuía condições de levantar e ir atrás de uma ajuda médica até se recuperar parcialmente para não tropeçar no primeiro passo, ainda tonto pela explosão. Sua preocupação e urgência era tanta que não notara a aproximação de um dos três homens que vieram auxiliá-lo com Kamshad. Virou o rosto assim que descoberto, encarando-o com os olhos afiados, mas ausentes da cor dourada que antes os banhava. Inconcientemente, havia inclinado ainda mais seu corpo para cima da coruja como uma manta, numa auto-defesa agressiva de um animal encurralado. Estaria pronto para pular numa possível afronta, apesar de seus pensamentos continuarem, em grande parte, uma bagunça, devido aos diversos estímulos negativos que sofrera. Qualquer ato preconceituoso também passou despercebido por seu olhar, perdidos em esquecimento.

São… marinheiros. “...uma equipe médica”, as palavras fugiram-lhe a boca. Piscou os olhos e sacudiu levemente a cabeça, tentando recuperar o raciocínio. “...Não, meu companheiro está com a pata quebrada.”, ele olhou ao redor, finalmente tomando consciência da situação. Todos possuíam ferimentos. “Precisamos ir para a base de vocês, encontrar com o Comodoro Ryan.” Deu uma pequena pausa. “E precisamos de ajuda.”

Pouco ouviu das palavras de Siena. Logo ao terminá-las, outra explosão tomou lugar, e isto sim afetou o chacal. Abaixou a cabeça, encolhendo o corpo e protegendo Arash, num reflexo inconsciente. Gemeu em desconforto. Sentiu a dor nos ouvidos e a tontura voltarem fortes por um instante, levando alguns novos segundos para se assentarem em sua cabeça novamente. Para sua sorte, fora longe de onde estavam, ou sua situação teria se agravado. Quando conseguiu recuperar os sentidos, pôde ver a fumaça nos céus do horizonte. Vinham da direção da cidade, e qualquer um saberia dizer que fora tudo planejado.

As únicas palavras que saíram de sua boca foram um “o quê?” suprimido, pouco acreditava nos próprios olhos. Apesar de seu segundo trabalho controverso e agressivo - o primeiro e prioritário era sua amada forja, mas nem sempre os ganhos supriam suas necessidades - , Irus não feriria alguém sem razão, muito menos agregava rancor o suficiente de seus adversários para tomar-lhes as vidas. Como fizera com Arash e Siena, caso visse uma cena em que alguma estava prestes a se perder, intervinha, mesmo sem conhecimento da situação. Não fora feito para matar, sua natureza florescera em um ambiente gentil e esforçado, que media ações antes de tomá-las para ter o menor prejuízo à todos possível. Consequentemente, cenas de guerra não lhe faziam bem. Fugia de conflitos como podia, ou sabia que acabaria como muitos: afogando no próprio sangue, os olhos preenchidos por ódio daqueles que não conseguira derrotar. É claro, acabou mergulhando fundo demais na guerra subterrânea. Inocentemente acreditou em Siena acerca de Kamshad, imaginando que as ações dos rebeldes teriam seus limites, mas estava errado. Seus dois feitos finais provaram-se assustadores. O que havia atingido? Quantas pessoas não-relacionadas ao conflito foram puxadas para ele? Não podia calcular. E nada posso fazer sobre isso, suspirou, incomodado. Antes de qualquer coisa, precisava se deslocar com o grupo de marinheiros e os dois rebeldes para a Base da Marinha. Todos ali estavam feridos, e era impensável para si tomar qualquer ação que deixasse Arash sem cuidados ou que arriscasse sua própria vida desmedidamente. Forçou os joelhos e sentou-se no mesmo local onde havia se deitado, colocado no companheiro. Conforme recuperava controle, e cada desconforto diminuía, ajeitava Arash em seu colo, até finalmente colocar-se de pé. Pegou Solar do chão, prendendo-a em seu respectivo lugar cuidadosamente, a fim de não incomodar quem carregava com tanto carinho. “Temos… duas opções. Irmos todos para a Base, e vocês carregarão aqueles dois.”, ele indica Paul e Siena com a cabeça. “Ou iremos eu e mais um para lá, buscando alguma equipe médica.”, seu olha passa para os céus alaranjados, conforme mais fumaça subia da nova explosão. “E não podemos demorar, principalmente vocês. A cidade está em ataque. Antes de ajudarem qualquer um, precisarão de cuidados médicos.”

Acompanharia qualquer decisão tomada pelo grupo, visto que eles possuíam maior conhecimento do mapa da cidade e autoridade para chamar pelo Comodoro. Irus não passava de um mercenário, era sua obrigação dar a eles prioridade.



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 Posted: Apr 28 2018, 06:24 AM
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Irus poderia ser visto como um orgulhoso, pois era homem de poucas palavras, passando a imagem de que suas palavras apenas diriam o óbvio ou que seu ponto já estava provado por suas ações, deixando os outros sem respostas concretas para concluir um diálogo e vendo-se diante de um monólogo simplesmente pelo outro negar-se a embutir algumas palavras como combustível para a conversação, tendo um ar arrogante diante dos ignorados, sempre certo, de mente imutável. Também não era uma pessoa exatamente passional, pois por mais que distribuísse carinhos com Arash, chegava a ser seco com os demais, mostrando-se uma real rocha viva, difícil de se lapidar e pela sua própria personalidade, não provocava a vontade naqueles que talvez, ousariam tentar aproximar-se dele. O caso era que por mais que suprisse metodicamente seus sentimentos de dor diante do combate com os rebeldes, no máximo demonstrando esforço ou raiva ao aplicar seus ataques ao erguer a fuça e arreganhar os dentes afiados, diante do intolerável som da explosão, ele se rendeu a toda a dor, urrando enquanto tinha seu corpo queimado levemente e para sua infelicidade, não fora um, mas sim duas vezes em que teve aquele retumbo em sua mente.

O ato do grandalhão era carinhoso e fraternal, porém quando colocou a fuça no peito de Arash, a ave continuou piando, talvez até mais forte, não por medo do outro ou por dor, mas sim por temer que seus chamados por ajuda fossem abafados pela colossal cabeça que tentava aliviar a sua dor. Ele simplesmente não parava de berrar, mesmo quando o outro passou por cima de si, protegendo-o das casualidades e isso agora realmente o assustou, pois no momento em que fora coberto, obrigando-o a parar de se contorcer, ele bicou o chacal da maneira mais agressiva que conseguia, porém não era por ódio ao outro e sim, por não saber direito o que ele estava fazendo e o alertava de que estava machucado (como se não tivesse percebido).

Passado o tempo e Arash continuou preso entre os pelos quentes de Irus, ainda se sacudindo a cabeça violentamente, porém seu corpo não se movia pelo peso do outro que o limitava e assim que cansou e viu que as intenções de seu amigo não eram maléficas, ele se acalmou e virou a cabeça ao ver que poderia ter ferido o outro em suas bicadas agressivas de aviso, então ele passou a testa nos pelos, porém, como em um pedido de desculpas, ele piou fracamente e ritmicamente por três tempos consecutivos, puxando as madeixas com o bico e fazendo um pequeno ninho que deveria ser visto como uma bandagem para os pequenos furos do bico afiado.

O que Irus realmente precisava naquele momento era de um médico e dado os danos entre os marinheiros, todos ali precisavam. O maior anunciou que precisava falar com o Comodoro Ryan e isso fez com que o soldado que estava em sua frente fizesse uma expressão de surpresa, parecia ter lembrado de algo, mas logo fechou em uma careta enquanto franzia a testa e olhava para o chão, lateralmente.


- No momento isso é impossível, mink. - Subitamente começou a mostrar seu preconceito em coisas pequenas, pois por mais que Irus realmente fosse um mink, dificilmente aquele homem chamava os seus colegas de "humanos" e obviamente, para ele, aquilo era apenas constatar o óbvio, um apelido, uma chamada sem saber o nome do caçador. - Há uma emergência entre a Marinha e o alto escalão está no porto se mobilizando para um ataque e eu creio que as más notícias não param por aí... Se a explosão do velho tem alguma repercussão com o castelo, diria que o Rei está em apuros... - Ele logo tossiu e cuspiu no chão uma pasta rubra que misturava fuligem e um pouco de sangue, olhou para aquela nojeira e passou o pé em cima, erguendo-se sem prestar ajuda ao próximo. - Mas o seu trabalho era apenas com isso, certo? Procure um médico, mas não vá para o porto, lá está muito movimentado, vá para nossa base ou procure entre os moradores... Tanto faz, você sabe se cuidar. - Tinha um certo desdém, ainda mais com a pose do grandalhão segurando uma coruja como se fosse um bebê, visão essa que não agradou ao marinheiro e ele não poderia se importar menos com a saúde da ave. Apontou para a direção que deveria ser percorrida e nada mais era do que o caminho da qual vieram, basicamente seguindo reto.

Após as informações, Irus dava suas ideias do que deveria ser feito, sendo coerente em suas decisões. O marinheiro iria dar assistência para seus colegas e em grupo, carregariam Siena e Paul, o que era um esforço titânico comparado a Irus, que meramente teria que carregar um punhado de kilos que era Arash, logo em seguida ele sugeriu que ele e mais um, provavelmente o que estava em melhores condições e diante de si, iriam retornar e chamar uma equipe médica para todos ali. O marinheiro arregalou os olhos com o que Irus dizia, porém logo ele riu, entrecortado por tossidas e colocou a mão no peito do maior, retirando e esfregando em uma árvore como se tivesse tocado em algo sujo, indigno.


- Vocês ouviram isso? Essa montanha de músculos quer carregar o passarinho enquanto a gente fica com o trabalho pesado! Vamos lá... Ryan deve estar te pagando bem por essa caça... Não há uma maneira melhor de nos convencer? - Ele sorria maliciosamente, mas não esperou uma resposta de Irus, tossindo diante de qualquer coisa que ele viesse a falar. - Você nem marinheiro é. Apenas um cão de rua à procura de restos da Marinha. Quer mandar em mim e nos meus colegas? Consiga um emprego de verdade, seu vagabundo. Que diferença há entre você e um pirata? - Os outros marinheiros não se manifestaram, deixando que o outro falasse o que bem entendesse. Siena tossiu também e Paul tremeu, chamando a atenção do homem, que fora até ambos e virou o das costas queimadas com certa curiosidade, tomando um tempo para averiguar o ferimento, sem respeito algum por aquele que sentia dor. Assim que satisfizesse sua curiosidade, ele tossiria e ia até Siena.

- Rebeldes, hã? Sabe... Você não tem uma recompensa, é só mais uma escória que se juntou contra Davash... Não que eu me importe, claro, sou só um marinheiro em busca de justiça. - Ele ajoelhou-se ao lado de Siena, que moveu as orelhas para trás enquanto encarou com um olho, instintivamente colocando a mão sobre o ferimento, temendo a aproximação do outro e mais uma vez, chamando a atenção dos atentos olhos do marinheiro. - O que você tem aí? Uma arma? Uma faca? Você está resistindo a prisão? - Não tinha como haver qualquer coisa ali, mas ele estava procurando motivos para machucá-la e vendo aquilo como um movimento brusco, sem se importar com Irus ou os colegas marinheiros, ele se levantou e deu um chute sobre o ferimento, pressionando com o calcanhar enquanto a gata urrava de dor e logo em seguida fechava a boca, apertando os dentes vermelhos enquanto uma baba espessa escorria pelo canto dos lábios e ela não tinha força para retirar o pé. Lágrimas vieram em conjunto com o esforço que ela com certeza não poderia fazer. - É isso a vida de um rebelde, não? Querem fazer revolução contra o rei? Tá aqui a sua revolução! Aprendam a seguir ordens, sejam elas do Governo Mundial ou do regente da sua ilha! Se não gostou, vai pra Dililo!

Ele se divertia enquanto machucava Siena, Paul estava impossibilitado de fazer qualquer coisa e apenas assistia com ira em seu olhos.

O aperto da gata fora ficando mais fraco e a expressão dela aliviava enquanto seus olhos iam aos poucos para trás, começando a perder a consciência. O marinheiro se abaixou novamente, retirando o pé e permitindo que o local relaxasse, onde ela logo colocou a mão fracamente sobre e da maneira mais hipócrita possível, o homem colocou a sua também, estancando o ferimento enquanto ele cuidava dela.


- Não desmaie, por favor, cidadã! Tem uma cela escura te esperando na nossa base, obviamente, longe desse seu amigo e com uma tranca leve, para podermos conversar, o que acha? - Olhou para Irus. - Ainda aqui? Vá! Seu frango precisa de um médico, não?

Logo Arash começou a fazer um "wuo wuo" e se o maior o visualizasse, ele apontaria com o bico para uma direção e limpado o sangue com o manto que tinha no pescoço, assim como pressionado as vias nasais para limpar a mucosa do carbono, seu olfato retornava aos poucos, sentindo ainda forte o fedor ferroso do sangue e fuligem, porém finalmente sentia o do solo e das plantas, não muito além disso. Suas orelhas não mais sofriam com as explosões, então ele conseguia perceber movimentação vindo atrás de si, do caminho que o marinheiro apontou, mas dessa vez, a coruja se remexia desconfortável, não sendo uma presença que ela considerava amiga.

Siena abriu a boca e soltou uma bolha de sangue, que em outro momento poderia ser de saliva, mas aquilo era apenas um reflexo de que ela queria falar, mas não tinha forças e todo o ar que saiu de sua garganta apenas fora o suficiente para inflar um pouco dos fluídos que escorriam pela sua boca. Seu olhar estava bem morto e ela não parecia conciliar a realidade, ignorando o marinheiro que a recém a machucou ao seu lado, parando o sangramento dela. Logo ela abriu um sorriso para ele e o chamou de Kamshad fracamente (as orelhas de Irus captaram isso como um sussurro para si próprio). Ela alucinava.

Paul se preocupou e com o braço bom, ele se impulsionou colocando a mão na terra e empurrando, tendo equilíbrio para ficar sentado sobre sua barriga, as pernas esticadas enquanto ambas palmas estavam contra o solo. Ele arfava pelo esforço. Olhou para os marinheiros que já começavam a se levantar e o que achava estar cego, estava agora nos ombros do outro que havia fraturado as costelas, já enxergando enquanto esfregava os olhos com cautela, pois suas mãos estavam feridas. Achou-os inúteis e momentaneamente olhou para Irus, mas ele não passava de um inimigo a recém enfrentado, jamais faria algo a respeito, então tinha de tomar as rédeas da situação.

O rebelde balançou o corpo até se jogar para a frente e se ajoelhar, tudo com grande esforço. Colocou um pé na frente do outro e se levantou com apoio da palma sobre o joelho. Colocou os dedos no ferimento causado pelo chacal e de fato, não havia sangue (mesmo já tendo verificado diversas vezes). Cambaleou até Siena, colocando a mão sobre o ombro do marinheiro e puxando-o dali, mas suas forças eram mínimas e ele apenas conseguiu se agarrar e puxar o resto de uniforme, rasgando aquele trapo mais ainda. Isso não divertiu o marinheiro que se levantou e o encarou.


- Vocês dois são minha responsabilidade agora. Algo está ocorrendo nos mares e a Marinha inteira está dando atenção a isso, os soldados de Davash estão lidando com o atentado no castelo. Essa missão é de nós três! Você já está derrotado pelo mink! - Ele colocou a mão sobre a ferida e a apertou com todos os dedos e com toda sua força, mas como Irus houvera usado do Electro na arma e a musculatura ainda estava contraída e anestesiada, Paul apenas olhou surpreso, esperando sentir uma terrível dor, mas nada veio, então ele virou o rosto para o marinheiro e deu uma cabeçada em seu nariz, quebrando-o de imediato enquanto ele cambaleou para trás e quase caiu sobre Siena, não fosse a mãozorra do rebelde agarrá-lo e empurrá-lo para o lado.

O marinheiro não caiu, mas colocou ambas palmas sobre as narinas em hemorragia. Ele não gostou daquilo, então fora até seu rifle enquanto Paul se agachava e cuidava (de verdade) de Siena, tornando a ambos alvos fáceis.
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Seth
 Posted: May 28 2018, 11:25 PM
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Cortando Laços Indesejados

Seus olhos seguiram para aquele que primeiro expôs a voz, aos poucos atentos a cada palavra expelida. Sentiu um incômodo atrás da orelha assim que soube que não tão cedo encontraria com aquele que o contratou - na verdade, tornou-se até surpreso com sua própria inocência, acreditando que o Comodoro da ilha estaria disponível para seu atendimento após o início dos ataques em parte da cidade. Era claro a qualquer um que não estaria, pelo contrário, talvez nem na Base estivesse. Para sua infelicidade, no entanto, ela ainda era o melhor local para aguardá-lo, independente da confusão que a base pudesse estar sediando, ou do eventual olhar torto que alguns marinheiros poderiam passar, e que, como sempre, suas costas receberiam. De fato, a memória longínqua de quando encontrou-se com o homem pela primeira vez, para o começo da busca de Kamshad, deixou-lhe ligeiramente incomodado: Comodoro Ryan havia abordado a si e a um outro mercenário sorrateiramente, e somente revelou sua face quando estavam a sós, dentro de um cômodo da taverna. Não tinha garantias que seus subordinados, mas não aqueles que acabaram de vivenciar a morte do líder, acreditariam no contrato, ou em suas palavras da cena do suicídio. Talvez nem soubessem que seu Comodoro havia saído em busca de terceiros para lidar com Kamshad. Ou talvez ele simplesmente não quisesse se destacar na parte baixa da cidade, desde o princípio. Notou a necessidade de contratar terceiros para buscar alguns dos rebeldes, mas quis ser discreto, concluiu, um pouco cansado. Qualquer uma das opções parecia viável, mesmo que a primeira ainda beliscasse insistentemente as costas de sua orelha. No fim, não outra saída, se não acreditar no Comodoro, pois sua parte já estava feita.

A reação desencadeada por suas palavras seguintes, no entanto, pegou-lhe de surpresa: não somente fora negado, mas também caçoado por pouco. Risadas percorreram com certa facilidade o espaço vazio e mórbido deixado pela explosão, acompanhado de uma grande taça fina, precariamente preenchida pelo mais raso e fraco sarcasmo. As palavras do homem vazavam de suas cordas vocais mal pensadas e descuidadas, sem ao menos analisar ou procurar entender a situação do mercenário: Siena e Paul não eram de sua responsabilidade. Eles não faziam parte do contrato do Comodoro, por este ser unicamente composto por Kamshad. Logo, não lhe cabia levá-los até a Base - a não ser que fossem as únicas testemunhas do suicídio do líder. Mas há três marinheiros além de mim e de Arash que presenciaram a cena. Para outros da Marinha, ouvir as palavras de seus próprios homens é mais confiável. Siena e Paul não são meus. Sua única prioridade, agora, era a coruja de quase um metro de altura, que estava machucada demais para levantar vôo ou pousar, dependendo integralmente de si. O próprio Chacal não estava em uma condição confortável: cortes estendiam-se por seu corpo, além do cansaço e dos músculos que gemiam a cada movimento brusco, após receber um Electro de Siena. E o furo do tiro reabriu em minha perna. Carregar muito peso é inviável, suspirou. E… restos da Marinha? Não negava que seu segundo trabalho não era um dos melhores, mas se a Marinha buscava à terceiros para fazer o trabalho sujo, certamente não era por opção. Os superiores não confiavam em seus subalternos, ou não queriam manchar o nome com assassinatos e alianças duvidosas para alcançarem seu alvo. Pouco importava o quanto alguém pisasse sobre a profissão de um mercenário, era certo o envolvimento com a Marinha, e sua necessidade por todos os mares. Inegável até ao mais baixo cargo.

Levantou levemente o rosto. Não piscou os olhos, nem os desviou do arauto. Não soltou uma resposta sequer, além dos próprios pensamentos. Uma briga não lhe favoreceria em sua situação atual, e não era alguém inclinado à combate, ainda mais quando desnecessário. Quanto mais rápido o homem terminasse com a falação, vendo a ausência de reação, mais rápido resolveriam o que estivesse pendente - no caso, atendimento médico e seu pagamento. Achou incômodo, no entanto, como o marinheiro conseguia encontrar disposição para servir da dita taça, dado o momento e a situação que todos se encontravam: a cidade estava em ataque. Certamente, a prioridade era resolver a cena o mais rápido possível, e não jogar palavras odiosas ao ar, sem qualquer utilidade ou serventia.

Contudo, o homem não havia acabado. Terminado sua zombaria, caminhou até Siena e Paul, avaliando-os com os olhos preenchidos por sede de agressão. Perguntou-se se sua passividade para com suas palavras teria sido a causadora da mudança de alvo, ou se simplesmente era o gênio do homem importunar aqueles que estavam fragilizados - o que não esperava, entretanto, é que suas ações não se limitariam a sua voz para a dupla de rebeldes. Quando pegou impulso e desferiu um chute na Gata, seu rabo estalou, e seus pelos da nuca se eriçaram, embora escondidos debaixo de seus cabelos. Fechou fortemente o punho na haste de Solar, enquanto Arash pendia-se em seu colo, auxiliado por seu braço esquerdo. Com a contração brusca, pôde sentir os músculos gemerem junto aos ferimentos abertos, pois não havia recuperado-se do desencadeamento de acontecimentos, numa sequência ininterrupta assustadora à qualquer telespectador. Mesmo que ela estivesse com uma faca, não está em condição alguma de reagir. Franziu o focinho. Estava desgostoso. Não quis reagir nos primeiros momentos, acreditando piamente que alguma consciência poderia vir a cair sobre o homem, e este viria a acordar, notando todos os problemas que precisavam lidar com durante seu espasmo de raiva. Seus companheiros pareciam não exibir qualquer reação, mas, mesmo assim, ele insistia. Um chute. Dois chutes. Três. Mais e mais o corpo de Irus reagia negativamente à violência gratuita, descrença subia-lhe à cabeça. Se a situação continuasse, não haveria qualquer futuro para Siena. Não se segurou. Falta de compostura.

“Você está certo, senhor.” Falou, alto e claro, interrompendo-o. Sua voz, que normalmente utilizava de um tom baixo, assumiu uma altura que esperava ser grande o suficiente para chamar sua atenção e fazê-lo parar, mesmo que momentaneamente. Segurou-se brevemente, contudo, em seu pronome, embora ainda fosse difícil distinguir se realmente houve qualquer emoção em sua fala. “Deixe-me carregar a gata, pois será menos problemas para vocês.” Expôs o machucado na perna para todos. “Mas não acredito que posso fazer nada mais, tomei um tiro na panturrilha durante a perseguição.”

Andou em direção aos dois rebeldes e ao Marinheiro. Prendendo Solar nas costas como podia, pegou Siena com o braço que lhe restava, ajeitando-se da melhor e menos dolorosa maneira possível. Quando colocou-a sobre o ombro, sentiu novamente os músculos reclamarem: parecia estar revivendo a noite anterior, com o suor escorrendo por todo seu corpo, o pêlo negro grudando graças a mistura do líquido e do sangue endurecido. Não demoraria para seu estômago também começar a apertar, choroso pela falta de alimento desde a manhã. Não sabia dizer quanto tempo aguentaria carregá-la, e tinha receio da tontura voltar com uma nova explosão - mas, de uma maneira ou de outra, sentia-se mais inclinado a tomar ação do que ver uma morte desnecessária em sua frente. Ainda mais uma morte suja.

“Estou no aguardo de suas ordens.” Comentou, por fim. Aguardou por breves segundos, até sentir Arash cutucar-lhe o peito. Abaixou o rosto, preocupado, acreditando estar machucando-o de alguma maneira, mas felizmente estava enganado: a coruja estava bem e sã em seu colo. Contudo, sua expressão não demonstrava tranquilidade: estava com o olhar franzido, como em desespero, piando para a selva atrás de si. Reforços? Da Marinha ou... remexeu as orelhas, ainda encarando o companheiro. Não estava com as narinas e o olfato completamente recuperado, sua audição ainda retornava aos poucos, mas o pouco que possuía era o suficiente para escutar o som da mata sendo afastada, abrindo caminho para o que quer que vinha em sua direção. Não. Não são da Marinha. Não são nosso reforço.

“Há um grupo aproximando-se de nós. Não são ajuda.” Fechou os lábios, não sugerindo que se apressassem. Não estava no comando, mesmo com todos os problemas, e uma mera sugestão vinda de si, pelo o que presenciou, não lhe daria uma boa resposta vinda do marinheiro. “Quais são as ordens?”



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Peço perdão pelo post curto e pela demora, minha Mestra. A partir de hoje, volto ao ritmo normal, tanto de tempo, quanto de qualidade de escrita. @Angelique
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Angelique
 Posted: Jun 25 2018, 02:11 AM
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A voz de concordância saiu como um "basta", chamando a atenção do homem, que no silêncio durante seus golpes, era como se o próprio Ryan tivesse visto seus atos de covardia diante o combate e sobre os prisioneiros, pegando-o de surpresa e fazendo com que tremesse levemente o corpo, o que o impediu de desferir mais golpes. Olhou para Irus que vinha na direção dele e logo contraiu os músculos e uma veia saltou em seu pescoço, preparado para dar um soco na fuça do chacal, mas por maior e mais intimidador que ele fosse com sua lança, ainda era um ser da paz e não houvera confrontos, apenas passou e pegou Siena enquanto se agachava ligeiramente, puxando-a com a totalidade da força de um braço e com um impulso rápido, ajeitou-a no ombro, sentindo o líquido quente descer pelas suas costas e quase imperceptível, os braços molengos fizeram um esforço para se contrair e ela fechou o punho, agarrando fracamente um punhado do pelo de Irus enquanto afundava o focinho nas costas dele. Era inegável que suas costas e ombros largos traziam conforto e proteção.

A submissão em que o chacal demonstrou era única, era quase como a de um derrotado que suplicava por socorro, porém, completamente diferente. Ele era um homem com preceitos, que tinha sua mente no lugar e o preconceito que sofria estava abaixo de si. O marinheiro com fome de poder e sede de sangue olhou-o com fogo nos olhos por não ter alguém que replicasse, que lhe desse uma boa luta, que comprasse a briga e aumentasse os motivos para receber a recompensa do mercenário sem que seus colegas viessem a dedurá-lo, mas a atitude grotesca com a raça do maior, aquilo era "aceito", era "comum", não tinha motivos para esconder algo que muitos tinham em mente e não falavam. Era ambicioso como um pirata.


- Pegue sua presa e vá para a base... - Ele demorou um pouco para falar, apenas encarando Irus por um momento como se esperando que houvesse uma afronta a qualquer momento, um deboche ou qualquer coisa, porém a calma do maior era digna de uma divindade, o que frustou o marinheiro. Antes que Irus fosse enfim embora, o homem pegou um dos rifles e apontou para o chacal, engatilhando a arma com um sonoro "click". Ambos outros colegas dele já estavam de pé e ele ia recuando mata adentro com eles, em passos devagar. - Mas siga o caminho de onde vem o som. Nós iremos lhe usar de isca, mas não se preocupe, nada de mal irá lhe ocorrer, iremos protegê-lo. Mostre o inimigo e nós saltaremos das sombras para pegá-los. Agora, mova-se.

- Caçador... Qual o motivo de me salvar? Eu não estou valendo nada... - Siena falou aos cochichos em suas costas, pois por mais desagradável que fosse a pose em que estava, gostando ou não, ele pressionava o ferimento e não deixava que a hemorragia fizesse com que a vida da garota esvaísse-se em conjunto do líquido, entretanto, sua voz ainda assim era fraca e arrastada, engolindo uma grande quantidade de oxigênio para falar tudo em um fôlego só. Ele sentia a respiração em sua coluna enquanto ela tentava se segurar como dava, mas ainda assim parecendo um filhote que prendia-se com medo de algo, que no seu caso, era a morte em si, não tendo descanso algum com seu ferimento que era consecutivamente explorado pelos adversários.

Arash não piou, mas se mexeu o suficiente para que Irus o impulsionasse com o braço, dando a força que precisava para alçar voo, pois mesmo com a pata machucada, ainda tinha as asas fortes o suficiente para sair do caminho do grandão enquanto ele lidava com aquilo, não o abandonando, mas circundando a zona para melhor guiá-lo ou rastrear os inimigos enquanto estivesse no ar, não sendo um inútil em seus braços (ainda mais por se sentir culpado de tê-lo machucado com o bico em seu ato de desespero).


- Vamos, cachorro! Mova-se! - O Marinheiro perdia seu jeito singelo de falar enquanto perdia a paciência. Por outro lado, seu presença era realmente desconhecida a primeiro olhar, pois assim que caiu atrás dos arbustos com os demais colegas, a roupa ficou cheia de galhos e folhas, sujas com o solo e perdendo sua coloração branca e mudando-a para o marrom, assim como as azuis se camuflavam com a escuridão da noite e tornavam-se como sombras entre a galhada, realmente se pigmentando ao local.

Paul se levantou e fora aos tropeços até Irus, colocando uma mão embaixo da cabeça de Siena, assegurando que por mais que o grandalhão caminhasse, isso não iria machucá-la mais, pelo menos naquela área tão crucial, a gata por sua vez nada respondeu. Ele cochichou algo para ela que com certeza os marinheiros não ouvira, porém pela proximidade o maior conseguiu ouvir que ele tentava acalmá-la, acariciando o queixo dela (e sem querer passando as costas das mãos nas costas de Irus, o que era um movimento leve e sensível, carinhoso mas não como a de um pai com uma filha e sim, como de alguém de fora que realmente se importava, semelhante a de um melhor amigo e ele conhecia esse sentimento, como de quando Arash se esfregava em seu pescoço), trazendo palavras de força, que iriam passar por aquilo, que a "Siena do futuro" não estria sentindo dor, que ela só precisava se esforçar um pouco mais e logo estaria entre marinheiros que a protegeriam e cuidariam de seus machucados de forma que nem ele poderia, que ela já fez mais que o suficiente e não deveria cobrar tanto de si, não precisaria ser sempre forte e resolver tudo, haviam camaradas que cuidariam de tudo se houvesse a confiança neles. A cabeça dele estava baixa e quase tocava na dela, cochichando próximo a seu ouvido, só não realmente o fazendo pelo estado que estava seu corpo machucado.

Não tendo muitas opções além de seguir o som dos intrusos, Irus fora o burro de carga da expedição enquanto Arash, se fora alçado, o guiava por cima, não piando ou fazendo qualquer sinal, apenas concentrado como se até aquele momento, tudo estivesse bem até aquele momento, porém não demorou para que ele circundasse a zona e desse uma rasante por cima de Irus e se jogando para cima, não conseguindo ficar nos galhos e se negando a tirar mais a mobilidade que o maior já a tinha prejudicada, preferindo permanecer em voo.

Logo a vegetação na frente de Irus fora cortada e um homem com uma espada olhava para o grandalhão como se tivesse visto um urso, dando um pequeno salto enquanto arregalava os olhos, mas logo entendendo que era um mink realmente grande, notando logo em seguida a outra no ombro dele. A situação era estranha, pois como se fossem fugitivos, estavam sozinhos no meio do mato e se não fosse por Paul, os outros quatro que surgiram atrás do espadachim já teriam erguido suas armas.


- Ricardo...? - Paul dizia secamente, não por querer, mas sim por sua garganta estar meio arranhada, saindo de trás de Irus e dando um passo apenas para seu lado, se encostando em um tronco. Ricardo fez um movimento de que iria ajudá-lo (indo dar um passo para a frente, mas no último segundo cancelou sua ação e apenas moveu os joelhos), porém não gostou da presença de Irus ao lado de dois rebeldes machucados como prisioneiros e deixou sua espada baixa, mas não embainhada, os demais não engatilharam as armas de fogo, porém ficaram olhando-o com elas em mãos e facilmente mirariam se necessário.

- Senhor Paul!!! Quem é esse?! Ele lhe fez algum mal?! - Não falava agressivamente, mais preocupado do que qualquer outra coisa e se fosse algum ajudante, não iria ser rude e apontar a ponta de sua lâmina para a cara dele, porém era fácil de enganar tudo ali.

- Espere, ele está conosco... - Tão logo o homem terminou de falar, um barulho atrás de Irus. Rifles engatilhados folhas caindo, o marinheiro estava em menor número, mas em sua linha de fogo estavam todos, então ele tinha certa vantagem e Irus sabia que ele não temeria acertá-lo. Seus rostos sujos os deixava com uma aparência animalesca e até intimidadora no meio do escuro, o que fez com que o espadachim mantivesse sua arma abaixada e dois atiradores ergueram as mãos enquanto soltavam seu equipamento, sem saber se eram apenas aqueles três ou se haviam de fato caído em uma emboscada, os outros dois continuaram na mão, pois em seu campo de visão, não haviam mais, mas e se estivessem errados e houvessem mais nas árvores? No mato ao redor? Não queriam arriscar cair numa finta e parecerem bobos.

- Você está com eles, cachorro?! Não estava a serviço da Marinha?! - Rugia o homem enquanto Ricardo arregalava o olho, agora sim demonstrando raiva ao ver Paul machucado e Siena mais parecendo morta do que viva no ombro dele.

- Serviço da Marinha? Você está indo prender meus amigos?! - Lentamente seu pé esquerdo fora para trás enquanto ele apontava a lâmina para o pescoço de Irus (em uma pose típica de samurais, se preparando para um combate) e um leve "click" atrás de si, daqueles que ainda tinham suas armas, engatilhando-as discretamente e se preparando para um possível embate assim que o grandalhão desse a sua resposta, sendo crucial o suficiente para iniciar um tiroteio, tendo de escolher sabiamente suas palavras.

- Sem movimentos bruscos, amigo! - Dizia o marinheiro enquanto movimentava sua arma para cima e para baixo, não realmente mudando seu alvo (que era o espadachim), mas sim mudando de seu peito para sua cabeça, um alvo menor e mais fatal, entretanto, Irus ainda estava no meio daquilo tudo e de certa forma, dependia não apenas de suas palavras, mas também de que os rebeldes não fizessem nada impensado antes que pudesse abrir a boca, se não sabe-se lá quem iria sair vivo daquilo.

Para sua sorte, não havia chances de Arash se machucar mais, pois este estava em voo acima deles como um fantasma branco, apenas cuidando, mas assim que Irus erguesse (se o fizesse, claro), veria que fora abandonado pelo amigo sem pio, sem pena, sem aviso algum, apenas bateu asas e simplesmente saiu dali. Talvez tenha visto algo que lhe chamou a atenção, ou fora procurar Ryan, não era possível saber, assim como também não era do feitio do amigo ser egoísta a ponto de ir proteger a si mesmo diante do perigo.


This post has been edited by Angelique: Jun 25 2018, 02:12 AM
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Seth
 Posted: Jul 3 2018, 07:37 PM
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Seth




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Cortando Laços Indesejados

Apesar do corpo penar e chorar hora ou outra por descanso e cuidados médicos, pegou Siena com o braço livre, acomodando-a gentilmente em suas costas na medida do possível de sua situação. Sentiu a gata negar-lhe, a princípio, o único escape que ele poderia fornecer da agressão do Marinheiro - havia tentado causar algum ferimento ao chacal enquanto a carregava, porém a falta de forças por todo seu corpo somente lhe rendeu fiapos do pêlo negro e lustroso, o qual Irus tanto cuidava. Mas foi com menos de uma respiração faltosa que ela notou o quão jeitosamente havia colocado-a sobre seu corpo, e quanto calor havia lhe passado, em comparação ao chão terroso e úmido onde se encontrava segundos antes. Ele não queria lhe causar mal algum, além da batalha que já haviam desbravado; assim como não causara mal algum a Vendrick, nem mesmo a Kamshad, quando derrotou o garoto em batalha e capturou o velho líder. Sentia que vê-los vivos era um ganho maior para todos do que encerrar suas existências e tudo aquilo que carregavam consigo em história e conhecimentos - uma filosofia aprendida muitos anos antes, quando ainda partilhava do colo de sua mãe por caber perfeitamente dentro de seus braços. Ela afirmava, quando tirava o dia livre para observá-la durante o trabalho, que até a mais mísera folha de uma árvore possuía algo a oferecer para aqueles ao seu redor, assim como todos nós oferecemos, desde matéria prima, até em feitos e ações. Uma abelha ajuda às flores a reproduzirem, enquanto toma-lhe o pólen para a fabricação do mel; que logo vira alimento para um urso faminto. As flores servem de alimento para animais herbívoros e outros insetos, que acabam inconscientemente vinculados com as ações da abelha e do urso. No fim, formava-se uma grande teia de aranha, na qual as relações eram tantas, que tornava-se quase um tecido, impossível de ver os detalhes sem uma boa lupa.

Então, cabia-lhe a pergunta, o quanto mais uma vida poupada poderia receber e dar de contribuição ao mundo? Por que ele deveria encerrar uma fonte de diversas outras relações? No fim, sua expectativa era depositada nos poupados, cada vez que encerrava o combate sem executar o golpe final. Não era direito seu tirar a vida de seus oponentes sem que lhe dessem motivos - e nenhum chegara nesse ápice, até hoje. Talvez Kamshad houvesse quase alcançado seu limite, pelo mal que causara a Arash, mas tirou sua vida si próprio antes que pudesse buscar respostas e porquês de seus feitos.

Remexeu as orelhas. As ordens do Marinheiro não o surpreenderam; ainda assim, não podia evitar o receio acerca de quem e quantos estariam no outro grupo. Incitar um combate quando estavam com apenas três homens além do Chacal, este que carregava um dos inimigos abatido e ainda exibia o tiro do dia anterior, e todos possuíam algum tipo de ferimento, alguns até graves, beirava ao suicídio. Olhou de canto para o homem e sussurrou “Como desejar” para que não ficasse sem resposta, mas não podia assegurar que o plano do marinheiro daria certo, nem que sua situação melhoraria.

Seu maior problema era não estar em posição alguma para negar o que lhe fosse ordenado, ou tomar alguma ação própria - e, surpreso, somente havia notado o ambiente hostil no qual fora jogado em no momento que escutou o som detestável da arma de fogo do homem, pronta para atirar. Estava em sua mira, e sabia que o marinheiro não pouparia pólvora nem esforços para atingí-lo, em um movimento em falso. Não tinha escolha: teria de obedecê-lo até em atos de loucura, ou trocaria um único passo por sua própria vida. Detestável, pensou. Não se lembrava da última vez que estivera nas mãos de um louco, muito menos de quando perdera tanto o controle de suas próprias escolhas. Sempre tivera outro caminho a tomar, com raras exceções - mas as exceções nem eram tão perto em perigo; agora, no entanto, parecia que alguém olhava sobre si de maneira sádica, divertindo-se em colocar mais e mais problemas, antes que chegasse a entregar e clamar aquilo que fora contratado para fazer. O ser sádico havia fechado todas as portas disponíveis, com exceção de uma, e jogado todas as peças da caixa não no tabuleiro, como um todo, mas só em seu caminho. Estava, por completo, isento de opções. O som é realmente detestável.

Começou a caminhar num bom ritmo - mais vagaroso do que rápido, tanto pelo desconforto que consumia sua perna, quanto por Siena, que ainda sofria em suas costas. Sentia certo incômodo por ter, poucas horas antes, visto a gata preenchida por energia, e agora, conforme cada segundo passava, sua presença perdia-se junta do suspiro que lhe restava de vida. Qualquer resquício de calor em seu corpo parecia fugir sem olhar para trás, para o dono que abandonava. Era questão de tempo até não sobrar nada mais. “Não fale. Poupe o esforço, Siena. Está desperdiçando energia, e você precisa dela até a Base.” Sussurrou perto de suas orelhas. A esperança de sobrevivência restava sobre a Base da Marinha, após o dito grupo desconhecido e certo esforço para caminhar até lá, vindo do próprio chacal. O problema, no entanto, ainda caía sobre como fariam essa travessia sem maiores problemas ou atrasos; o que certamente afirmava ser impossível, com todos os problemas mencionados.

Não demorou três passos para Arash remexer sobre seu braço, pedindo vôo. Mesmo relutante e contra sua vontade, acabou cedendo o impulso para o animal, ou os dois acabariam por cair no chão - e certamente não queria ver o desenvolver dessa cena. Em contrapartida, comportou-se como uma mãe mesquinha, forçada a largar o filho, não importando o quanto não quisesse fazê-lo; estava com as sobrancelhas imperceptivelmente franzidas, e olhos que haviam abandonado tudo ao redor para acompanhar a criança, mesmo após esta já ter desaparecido acima da altura das copas das árvores. Como pousaria? Não estava gastando energia em excesso? A maior preocupação, no entanto, residia sobre o grupo inimigo que apontara, momentos antes, vindo em suas direções. Confiava que o companheiro não se manteria à vista, mas não confiava que o grupo deixaria de causar-lhe algum mal após encontrá-lo. Não desviou o olhar de onde Arash desapareceu por, e não o faria até ser necessário tirar sua atenção de lá.

Seguiu caminho, penando um pouco. Em certo tempo, o homem consigo em mira bravejou novas ordens, largadas ao ar por falta de quem as agarrasse. Apesar de todos os problemas, a dificuldade com a qual tinha de lidar no momento ainda parecia não alcançar seu rosto: era a mesma expressão séria, imutável. Talvez um ou outro músculo no focinho vacilasse pelo esforço que fazia, ou pela dor que sentia - pois não era resistente à ela - mas seu olhar negava qualquer outra mudança real. Para alguns, chegava a ser curioso como olhos tão dourados e quentes, semelhantes aos raios do Sol num céu sem nuvens, conseguiam, ao mesmo tempo, ser tão frios e duros; outros até chamariam de arrogância. Mas, no fim, preferia não contestá-los e deixar entenderem como sentissem que deveriam. Não tinha nada a esconder.

Ainda encarava Arash quando Paul surpreendeu a si, aproximando-se de suas costas. Desviou o olhar da coruja para o rebelde, até notar que nada queria consigo: o homem buscava Siena, a companheira de facção. Frágil, derrotada. Não havia tensão alguma em seus músculos, pois não tinha força alguma para aplicar. A cabeça pendia, com somente o pescoço segurando e impedindo que caísse no chão. Paul rapidamente notou isso, e tratou de ajudá-la como podia: deixando que apoiasse a cabeça em sua mão, acariciando carinhosamente suas costas e sussurrando doces palavras de incentivo, para que ao menos viesse aguentar até o fim da viagem, onde teriam um porto seguro.

Irus encarou o homem de canto, ainda mantendo-se atento ao céus, onde Arash estava. Pôde ver em seus olhos que estavam preenchidos de cuidado e carinho, embora não paternos; como os quais sentiu durante as horas e horas que correra nos subterrâneos da cidade, com a gata em seu colo. Era, na verdade, a ternura de um velho amigo, nem acima, nem abaixo; mas sim de companheiros que não demarcavam hierarquia alguma entre si. Podia dizer por sua expressão que se importava com Siena tanto quanto se importava com sua própria vida; que segurava os sentimentos junto ao peito, isento de medo para mostrá-lo. Era, de fato, algo que podia admirar no barista, mesmo com todos os problemas que passaram por; e que lhe trazia satisfação de ver. Afinal, Irus não segurava rancor sem razões - e até estas eram difíceis de ser geradas.

Quando reparou no retorno de Arash, era certo de que havia encontrado algo. Passou reto pelo dono, fazendo questão de somente alertá-lo com esta ação, antes de retornar aos céus, novamente acima da copa das árvores. Numa reação imediata, as longas orelhas do chacal remexeram, antes de virar o rosto de volta para a direção do som. Foi o tempo de uma respiração para um grupo de homens armados surgir por entre a mata densa. Paul imediatamente reconheceu o que vinha à frente. Eram rebeldes.

Sua posição era, sem dúvidas, delicada; carregava um dos rebeldes, Siena, desacordada nas costas, Paul vinha logo ao lado em condições melhores, mas não necessariamente boas; e si próprio não estava em situação melhor: possuía ainda o machucado em sua perna, seus pêlos cismavam em grudar no corpo suado - que aos poucos secava, endurecendo cada fio - e sua respiração exalava cansaço, claramente acelerada. Para qualquer um, pareceria ter saído de um confronto - mas, antes de tirar conclusões precipitadas, em alguma espécie de sorte, o rebelde perguntou a Paul o seu papel no meio da visão desastrosa dos três. Irus não respondeu. Nem ao menos puxou o ar para seus pulmões, na busca de fôlego; um erro posteriormente descoberto terrível. Quando o chacal decidiu se resguardar e deixar o confronto desenvolver-se por si próprio - na fé cega de que Paul seria sincero, ou que os Marinheiros agiriam antes de qualquer resposta - o barista optou por mentir. As consequências e os problemas surgiram antes do começo do pensar de uma reação.

Os três gatilhos cantaram, vindos de suas costas. Objeções e acusações voaram por todos os lados, infundadas de qualquer argumento sensato ou pré-pensamento antes de suas feituras. Uma das katanas correu até seu pescoço, e a tensão dominou ainda mais o ambiente; embora duvidasse que já não o houvesse feito momentos antes, quando começou a caminhada e fora obrigado a ir para a mira dos marinheiros. Agora, o que era delicado tornara-se fatal: estava no meio de tudo, cercado por cada arma, cada fala, cada língua. Os olhares ao redor, tão tensionados quanto o ambiente, não paravam quietos: pulando de um indivíduo ao outro, atentos a mera alteração de postura eventualmente causada por suas respectivas respirações - todas arfantes, sem exceção. Poderia tentar se mover, mas era certo: não havia para onde correr. Um revirar de orelhas em falso e somente a mistura de tiros e dilaceração lhe restaria.

“BASTA.”


Não pensou. Já estava no limite. A manta fria do suor e da umidade que lhe abraçava aos poucos parecia ter evaporado em um instante. Sentia a temperatura de seu corpo subir, como se estivesse em combate pulsando adrenalina avidamente - mas era claro que não estava. E qualquer um poderia dizer que o que a causava não era medo, pois, caso fosse, seria puramente frio, percorrendo sua espinha. Era raiva. Raiva, quase ódio. Inegavelmente estava cansado de acusações, estava cansado de repetir-se toda vez que deparava-se com outro desconhecido: a ninguém seguia. Não se prendia por relações, laços ou causas que tirassem-no de seu próprio caminho. Não gostava de instituições, pelo excesso de comprometimento que teria com terceiros, mas não consigo. O fato era que possuía um contrato em mãos, e faria o necessário para cumprí-lo. Neste caso, abria-se uma exceção necessária - era um trabalho digno, temporário e que lhe renderia a quota de beris mensal precisa para os pais, em Sagan. E com eles, os sujeitos de maior importância em sua vida, não falharia.

Também trazia-se outro fator: a promessa. Aceitara o trabalho, anunciando a intenção de seu cumprimento por palavras, então não voltaria atrás; afinal, essa era sua essência. Acreditava veemente que era correto em cumprir suas próprias palavras desde quando remetia à suas primeiras lembranças. Consequentemente, seguiria o contrato a risca, sem mais ou menos - somente o que fora contratado para fazer. Isso tirava qualquer outra responsabilidade de seus ombros, busca de informações e captura de outros rebeldes inclusas.

“Fui contratado pela Marinha para capturar Kamshad, vivo ou morto.” Encarou Ricardo em seus olhos, sem piscar. “Ele está morto, por atitude própria. Eu não mato.” Rosnou. “Os dois tentaram impedir a captura, mas falharam. Precisam de cuidados, ou acabarão como seu líder.” Seu olhar foi até Paul, pelo canto do olho. “O que vocês fazem ou deixam de fazer não é de meu interesse, então não me envolvam ainda mais em mentiras. Eu não sou um rebelde, e não serei.” Então, aumentou a voz. “E eu também não tenho mais condições de lutar, nem de contestar algum de vocês.” Olhou novamente Ricardo nos olhos. Estava cansado de uma conversa sem frutos ou objetivos. A luta deles não era consigo. De nenhum deles. Não estava envolvido.



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@Angelique


This post has been edited by Seth: Jul 3 2018, 07:42 PM
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